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Zorba e drambuie

Gustavo bebericava um uísque no balcão do bar quando a mulher entrou

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Ele foi de zorba. Não a cueca, o livro e o filme.

Tudo começou num barzinho paulistano. Gustavo bebericava um uísque no balcão do bar quando a mulher entrou. Era atraente, com um vestido bem curto e um decote que deixava ver seus lindos seios. Tinha feições bonitas, escondidas sob o excesso de maquilagem; só não podia ser chamada de linda pela dureza dos traços, de quem já havia segurado mil barras. Sentou-se no balcão, perto dele, e dirigiu-lhe um sorriso convidativo. O homem não se conteve:

– Você é bonita, gata!

Ela o olhou, avaliativa. Da cabeça – de cabelos brancos, cada vez mais escassos – aos pés, calçados em sapatos caros. Sorriu de novo e comentou:

– Obrigada, vovô.

Doeu, mas não muito. O sorriso foi amistoso e profissional, de uma mulher analisando um possível, mas improvável cliente. Não havia desprezo por sua idade na voz, só a constatação de que ele era no mínimo 40 anos mais velho do que ela. Soou como o “sossega leão” de Camisa Listrada, composição do sambista carioca Assis Valente. O comentário fora no mesmo espírito, um “vai manso” sem julgamento ou zombaria, entremeado a um “estamos aí”.

E então veio a lembrança do filme Zorba, o Grego. Zorba conta ao amigo inglês que certa noite estava numa taverna e se interessou por uma mulher muito mais jovem. Ela, maldosa, zombou dele, chamando-o de velhinho ou algo assim. Ele resolveu dar-lhe uma lição, pagou-lhe bebidas caras e se mostrou um perfeito cavalheiro, sem tocá-la. A mulher caiu em si, literalmente a seus pés, percebendo que ele – e seu dinheiro – não ficariam com ela, implorou que mudasse de ideia e a possuísse, mas ele, aparentemente diabético, fez doce.

“E se eu zorbasse essa vadia?”, pensou Gustavo. Em seguida perguntou:

– Posso pagar-lhe uma bebida?

– Claro, amor. Um drinque sempre vai bem…- e riu com voz rouca.

Ela pediu uma vodca pura, mas ele falou ao bartender:

– Esquece isso. Traz duas doses de licor de uísque. Drambuie.

Aparentemente, ela jamais havia tomado uma bebida tão fina. Ele pretendia zorbá-la, isto é, pagar boas bebidas sem tocá-la com avidez e grosseria, como fazia a esmagadora maioria de seus clientes, mas não deu tempo. Logo que a mulher tomou o primeiro gole, suas feições se atenuaram e falou, numa voz bem mais doce:

– Que delícia! Desce suave, como seda tocando meu corpo.

Ele concordou com um sorriso. Ela esvaziou o copo e convidou, sedutora:

– Vamos lá fora. Por 100 reais faço um oral que vai ser que nem seda, que nem essa bebida mágica.

A bola estava no campo dele. De um lado, seu projeto de zorbagem estava indo às mil maravilhas. Do outro, estavam num bar paulistano, não numa taverna grega; ela não era uma prostituta grega, e sim de São Paulo; e em especial, ele não era Zorba, uma força da natureza, não passava de um jornalista aposentado de 72 anos… Fez que sim com a cabeça, pagou a conta e saíram.

Foi no estacionamento, dentro do carro de Gustavo. Apesar da promessa, não foi um oral de licor de uísque escocês, mas incomparavelmente melhor que um de rabo de galo ou de uísque paraguaio.

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