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Naufrágio da direita

Gustavo Petro, ex-guerrilheiro, é eleito o presidente da Colômbia

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Foto/Imagem:
Bartô Granja, Edição - Foto Reprodução

O ex-guerrilheiro Gustavo Petro foi eleito neste domingo, 19, o primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia. Ele derrotou o populista de direita Rodolfo Hernández por uma diferença pouco superior a 4% dos votos válidos – 50,51% contra 46,10%.

É mais uma vitória da esquerda nas mais recentes eleições na América Latina. Petro promete profundas mudanças sociais na Colômbia, por décadas governada pela direita. Esta foi a terceira vez que o candidato, que tem 62 anos, concorreu à cadeira presidencial.

Petro comemorou a vitória com uma postagem no Twitter quando 98% das urnas estavam apuradas. “Hoje é um dia de festa para o povo. Festejem a primeira vitória popular. Que tantos sofrimentos se acabem na alegria que hoje inunda o coração da Pátria”, escreveu.

O presidente Iván Duque parabenizou o presidente eleito. “Chamei Petro para dar os parabéns a ele como presidente eleito dos colombianos. Concordamos em nos reunir nos próximos dias para começar uma transição harmônica, institucional e transparente”, afirmou.

O próprio Hernández reconheceu a derrota antes da totalização dos votos. “A maioria dos colombianos que votaram escolheu o outro candidato. Aceito o resultado como deve ser se desejamos que nossas instituições sejam firmes. Sinceramente, espero que essa decisão seja benéfica para todos e a Colômbia se encaminhe à mudança que predominou essa eleição. Desejo que Petro seja fiel ao seu discurso contra a corrupção. Muito obrigado a todos os colombianos”, afirmou ele em suas redes sociais.

O clima na arena Movistar, onde Petro e seus partidários acompanharam a contagem de votos, se tornou uma festa quando 70% das urnas apuradas foram contabilizadas. Música, o hino da Colômbia e agradecimentos aos grupos indígenas, às mulheres e aos jovens marcaram as comemorações.

“A vitória de Petro por uma margem pequena, mas um pouquinho maior que o esperado, mostra um certo clamor popular que ocorreu devido as ânsias nesses anos duros de pandemia que para a população geral”, disse Mario Aller San Milán, cientista político da Universidade Javeriana.

Segundo ele, agora a questão é se o presidente eleito “pode realmente levar adiante sua visão de governo, ao menos cumprir a maioria das promessas que fez e não decepcionar seus eleitores”. “Vai ser muito difícil, porque há um Congresso onde ele não tem maioria, mas também não é maioria contra. Ele terá de buscar acordos, chegar a pactos com outros partidos políticos”, disse Milán. Para ele, a eleição do economista marcou “triunfo sobre o medo” que pode tirar a Colômbia” da inércia em que “sempre permaneceu”.

No Congresso, o bloco de centro-esquerda, que engloba o Pacto Histórico, o Partido Comunes (ex-Farc), os grupos indígenas e a Coalizão Centro Esperança, tem 35% das cadeiras. Metade do Casa está nas mãos da centro-direita tradicional do país.

Nascido em uma família de classe média, de pai conservador e mãe liberal, e educado por padres lassalistas, Petro levantou as bandeiras da mudança e da ruptura com as forças que tradicionalmente governam a Colômbia. Seu passado como ex-guerrilheiro ainda deixa muitos colombianos apreensivos.

Petro militou no M-19, uma guerrilha nacionalista de origem urbana que assinou um acordo de paz em 1990. Ele conta que se rebelou contra o golpe militar no Chile em 1973 e uma suposta “fraude eleitoral” na Colômbia no mesmo ano contra um partido popular.

Admirador do Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez, na clandestinidade adotou o nome Aureliano, em homenagem ao personagem de Cem Anos de Solidão. Foi detido e torturado pelos militares e ficou preso por um ano e meio. Sempre foi um combatente “medíocre”, de acordo com seus ex-companheiros de armas.

Após assinar a paz, Petro chegou ao Congresso e depois à Prefeitura de Bogotá (2012-2015). Como parlamentar, destacou-se por denunciar os vínculos entre políticos e os paramilitares de extrema direita, mas como prefeito ganhou fama de autoritário e mau administrador por seu plano caótico de estatizar a coleta de lixo, então nas mãos da iniciativa privada.

Em busca dos eleitores de centro e dos indecisos, Petro prometeu austeridade e respeito à propriedade. No Twitter, o candidato elencou garantias sobre temas que foram levantados como temores durante a corrida eleitoral.

Durante a campanha ele propôs ambiciosas reformas previdenciárias, tributárias, sanitárias e agrícolas e mudanças na forma como a Colômbia combate os cartéis de drogas e outros grupos armados.

Depois de votar, ele convocou os apoiadores a votar em grande número para “derrotar qualquer tentativa de fraude” e alegou, sem apresentar provas, que eleitores em algumas assembleias de voto estavam recebendo cédulas previamente marcadas como votos em branco na tentativa de “cancelar votos que iriam para a mudança.”

O escrivão nacional, Alexandre Vega, defendeu a tarefa da autoridade eleitoral que chefia: “Apesar da desinformação, o processo eleitoral continua firme e forte”, disse em discurso público com Duque.

Silvia Otero Bahamón, professora de ciência política da Universidade de Rosário, disse que, embora ambos os candidatos fossem populistas que “têm uma ideologia baseada na divisão entre a elite corrupta e o povo”, cada um possui uma forma de encarar a luta contra o establishment.

“Petro se relaciona com os pobres, as minorias étnicas e culturais das regiões mais periféricas do país”, disse Otero, enquanto os partidários de Hernández “são as pessoas que foram decepcionadas pela politicagem e pela corrupção. É uma comunidade mais solta, que o candidato alcança diretamente pelas redes sociais.”

Pesquisas mostram que a maioria dos colombianos diz acreditar que o país está indo na direção errada e desaprova o atual presidente, Iván Duque, que não poderia concorrer à reeleição.

Muitos eleitores basearam sua decisão no que não querem, em vez do que querem. “As pessoas disseram: ‘Não me importo com quem está contra o Petro, vou votar em quem representa o outro candidato, independentemente de quem seja essa pessoa’”, disse Silvana Amaya, analista sênior da empresa Control.

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