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Licença poética

Há quem me ache melhor com a rolha na boca

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Artes/IA

De acordo com o disse onário, metáfora é uma figura de linguagem que descreve um objeto, uma coisa ou uma qualidade de maneira não literal. Ela compara dois termos ou ideias diferentes com base em uma semelhança entre eles. Na prática, é um recurso estilístico que pode criar imagens poderosas e vívidas na mente do leitor. Não confundir metáfora com os dicionários criativo e informal. Estes estão mais próximos da ambiguidade e da anfibologia, embora sejam, na prática, um eufemismo, isto é, uma palavra boa ou engraçada, usada em lugar de outra com efeito ruim.

Prefiro sintetizar toda a sintaxe gramatical, incluindo a polissemia (palavras com mais de um significado), afirmando que meu principal componente linguístico é a licença poética, por meio da qual fujo de todas as regras da escrita politicamente correta. Sei que é bonito dizer que suas lágrimas parecem um rio escorrendo por suas bochechas. Há algo mais romântico do que associar aquela donzela a uma gata? Talvez afirmar que a cadela da minha vizinha é linda. E vincular a mesma vizinha do quarto andar a uma cobra? Pior, só quando a gente chama de neve aquele amigo de infância, um afrodescendente de 1,90m.

Melhor evitar perguntar ao colega de futebol se o porco do pai foi sacrificado. O risco é grande de receber como resposta a informação de que o doente é o cachorro do irmão. Não gosto da várzea, mas ontem à noite acabei vendo uma senhora pelada. Sei que para alguns penso e beiro a perfeição de um bom vinho australiano. A diferença é que me acham melhor com uma rolha na boca. Tudo bem, pois eu tenho controle. O problema é que nunca tenho pilha. Aos detratores, lembro sempre que a opinião deles é muito importante para mim. Por isso, peço que a guarde até o dia em que eu decidir pedir.

Costumo dizer a meus leitores que “agente” junto é erro de português e “a gente” separado talvez seja um erro do destino. Está aí a razão pela qual pergunto diariamente a meu editor se o texto teve alguma receptividade. É uma preocupação rotineira, na medida em que o site tem cronistas de primeira linha. Daí, eu entender que, por causa de meio quilo de linguiça, o assinante não deve levar o porco inteiro para casa. O fato é que as dúvidas mais cruéis surgem exatamente no início da escrita. Diariamente me questiono se o leitor prefere ler sobre a imbrochabilidade de Jair Bolsonaro ou a respeito do africano que botou o fêmur para fora e cantou Fuscão Preto.

Às vezes, pergunto a mim mesmo se devo contar a história do japonês que abriu os olhos no karaokê pós-carnaval para cantar Cadê você? Estou proibido de falar do momento da linguiçada, do batimento de virilha e da cruza. Explicar como se entorta o pescoço da girafa e como se amola o pescocinho de frango, nem pensar. Enquanto penso o que posso escrever, balanço as pernas para facilitar a corrente sanguínea e o movimento da criança. Lembro do Novembro Azul, da dedada no girassol e, principalmente, da necessidade do aparamento dos pelos “pluvianos” para uma nova colonoscopia.

É nesse momento que vem à cabeça uma das mais brilhantes teses do ex-gordo Fausto Silva: “Um homem documentado é somente um homem cheio de documentos”. Me alivio e volto à labuta da escrita. Antes de tentar recuperar o fio da “meiada”, agradeço a Deus por ter recusado o convite para aquela festa do tipo ninguém é de ninguém. Melhor ficar longe das moças que há tempos rodam a batedeira e que, já em casa, não titubeiam quando a mãe preocupada com o atraso indaga à filha onde ela estava com a cabeça. Normalmente, a resposta é a mesma: “Encostada no pé da goiabeira”. O resultado é que ela perdeu a língua da gata.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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