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Herança

Hábitos de sangue

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Mamãe mastigava gelo. Ouvi dizer que era por causa de vermes. Não descarto que tenha começado por conta disso, mas depois endinheirou. Não tanto a ponto de ir a Paris aos domingos; era coisa assim classe média, que não sofre tanto, ainda mais quando se veio tão de baixo. Começou até a andar de avião, mas o gelo continuou. Mastigava, mastigava, e como mastigava.

Aquilo me dava gastura, que nem giz brigando com o quadro-negro. Podia estar o maior calor, me provocava calafrio, a pele dos braços arrepiava, a sensação de que eu fosse mais um cubo de gelo, me lembrava da minha mãe. Como ela conseguia? Sorvete não é melhor? Deve ser coisa de necessidade, difícil de largar.

Não peguei esse tempo de privação, mamãe já estava bem. Foi dela que peguei um hábito. Você também lambe a tampa do iogurte? Minha mulher ri.

— Tobias, por que não joga fora?

— É que a melhor parte fica aqui.

— Então raspe com uma colher. Assim fica feio.

Marília nunca foi pobre. Classe média, os pais são reservados, não falam muito sobre a vida de antigamente. Quer dizer, dona Lígia já contou que ganhava bons presentes no aniversário e no Natal. Seu Humberto, acho, não vai muito com a minha cara. Deve ser coisa de sogro que não gostou de ver a filha se casar com gente de passado de pobreza. Será que ele sabe que mamãe mastigava gelo?

Gosto de sorvete, não de picolé daqueles duros, tipo de limão. Aqueles com casquinha de chocolate, o recheio macio por dentro, eu gosto. São mais caros, é verdade, absurdamente mais caros, Marília só compra daqueles. Dou uma mordidinha e finjo não querer mais. Vá que ela queira comprar outro para mim. Uma mordidinha e já fico satisfeito, aquela sensação de ter feito algo proibido. Proibitivo. Acho que é isso.

Ando preocupado. Peguei a Larissa, a nossa menina, mastigando gelo. Já quis dar vermífugo, mas a Marília foi contra.

— Já marquei com a pediatra. É na quinta. Você pode ir comigo?

E lá fomos os três nos consultar com a doutora Neide. O sorriso acolhedor, parece parente que a gente quase não vê, mas sempre que faz visita é aquela sensação de “precisamos nos ver mais”. Pensei que Neide fosse apelido de, talvez, Francineide, Lucineide, Marineide ou até Ozineide. Porém é só Neide mesmo.

— É verme, doutora?

— Tobias, a Larissa está com o vermífugo em dia. Mas vamos fazer uns exames de sangue para ver se ela está com anemia.

A pediatra acertou. Também, estudou tanto para isso, tinha mesmo que acertar. Anemia. Será que foram os vermes que roubaram o sangue da minha mãe? Pobrezinha.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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