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Vozes da Literatura

Hélida Pivante transforma bagagem de vida em poesia

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Maria Alice Pivante

A poesia costuma ser associada aos impulsos e urgências da juventude, mas a trajetória de Hélida Pivante prova que as palavras mais profundas muitas vezes aguardam o tempo exato da maturidade para florescer. Natural da terra de Gonçalves Dias, sua grande referência literária, a escritora rompeu a barreira da gaveta após os 40 anos, impulsionada pela perda do pai — um momento de dor transformado em homenagem e que acendeu, de forma definitiva, sua faísca criativa. Definindo-se como uma “poetisa bissexta”, Hélida extrai das reflexões e dos aprendizados acumulados ao longo da vida o combustível para versos espontâneos, que dispensam rituais e surgem da pura observação do cotidiano.

Após estrear no cenário público pelas páginas do espaço cultural Café Literário, a autora enfrentou o tradicional frio na barriga da exposição na internet e hoje colhe o carinho e o reconhecimento dos leitores. O que começou como um desabafo íntimo transformou-se no sonho concreto de um livro solo e em uma poderosa voz de incentivo para novos talentos. Na entrevista a seguir, Hélida nos conta como a literatura transforma a bagagem do tempo em arte, reflete sobre a importância do acesso à cultura e deixa um conselho inspirador para quem ainda esconde seus sentimentos no silêncio da gaveta.

Hélida, você começou a escrever poesias após os 40 anos. O que aconteceu nesse momento da vida que acendeu a faísca da escrita poética?

Então, na verdade não sei nem explicar direito, mas o fato é que, depois do falecimento do meu pai, fiz um poema pra ele e, daí, continuei escrevendo esporadicamente alguns poemas e tem sido assim.

“Com a maturidade, além das emoções, nós temos as reflexões”

Muitas pessoas acreditam que a poesia é um território dos jovens e dos impulsos da juventude. Como a maturidade dos 40+ enriquece a sua forma de ver o mundo e traduzi-lo em versos?

Sobre acreditar que a poesia é um território mais dos jovens, eu acredito que é porque os jovens vivam mais intensamente suas emoções, porém, com a maturidade, além das emoções, nós temos as reflexões, os aprendizados que a vida nos deu e que, colocando isso em poesia, também fica maravilhoso.

“O que eu diria pra mim é leia, leia muito, procure ter acesso à cultura, aos livros”

Se você pudesse voltar no tempo, diria algo para a Hélida de vinte ou trinta anos sobre o seu talento guardado, ou acredita que tudo aconteceu no tempo estritamente certo?

Olha, se eu pudesse voltar no tempo, o que eu diria pra mim é estude, estude e estude, porque talvez essa escrita da poesia poderia ter acontecido antes, mas se não, quanto mais você tem acesso a estudo, à leitura com mais excelência, isso tudo torna as coisas mais profundas. Então, o que eu diria pra mim é leia, leia muito, procure ter acesso à cultura, aos livros. Eu diria isso pra mim.

“Às vezes surgem algumas coisas que me inspiram, sentimentos”

Você se define como uma “poetisa bissexta”. Como funciona a sua rotina criativa? Você escreve apenas sob forte inspiração ou existe um ritual de escrita?

Na verdade, não existe um ritual, às vezes surgem algumas coisas que me inspiram, sentimentos, às vezes situações, observo algumas coisas e, assim, eu escrevo, mas não fico procurando inspiração. Gosto de quando eu não estou procurando e vem a ideia. Assim eu acho que é mais interessante, as poesias ficam melhores quando é assim.

Suas publicações recentes ganharam as páginas do portal de notícias Notibras. O que pensa do Café Literário como espaço de difusão cultural e vitrine para autores de diferentes trajetórias?

Olha o espaço Café literário no portal de notícias do Notbras é algo muito importante, é algo que, na verdade,e eu considero grandioso porque é um espaço cultural em que várias pessoas têm a oportunidade de ter publicadas as suas obras, pessoas que às vezes não tinham a esperança de escrever, de achar que seriam publicadas e, de repente, se veem com essa possibilidade. Então, é incrível, é isso.

Publicar e expor os sentimentos na internet pode dar um certo frio na barriga. Como foi a sensação de ver o seu primeiro poema publicado no portal e qual tem sido o retorno dos leitores?

De fato, quando você coloca em poesias alguns sentimentos, emoções, você realmente se expõe e isso, de certa forma, deixa a gente, sei lá, é meio que inseguro, principalmente nos primeiros, bem nos primeiros… No segundo, terceiro poema, parece que é o que a gente tá escrevendo não é tão bom, mas depois a gente meio que se acostuma com essa exposição. E sobre o retorno dos leitores, muita gente tem me mandado mensagens dizendo: “nossa, não sabia que você escrevia, que legal, nossa, ficou tão bom, ficou lindo ,continue escrevendo.” Mas esse retorno, ele é muito bom, ele é maravilhoso.

“Sou grata à Maria Lúcia, porque ela me deu, um empurrão pra que eu começasse a escrever poemas”

Recentemente você escreveu um poema homenageando o “seu Valdir” no Café Literário. Qual é a história por trás desse poema e como ele reflete o seu estilo literário?

Na verdade, o poema que eu escrevi em homenagem ao Valdir, que é o meu pai, ele foi o meu primeiro poema, e eu não vou esquecer nunca este dia porque eu recebi um link a história por trás de tudo isso, é que eu recebi um link do Eduardo (o escritor Eduardo Cesario-Martínez), e no link tinha um poema que a escritora Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles, ela havia feito para o meu pai um poema, e esse poema me emocionou muito. Eu lembro que eu chorei quando li, e eu fiquei emotiva naquele dia, era um domingo se eu não me engano, era um dia de domingo, e eu li várias vezes. Então, de repente, eu comecei a escrever o poema, e o início do poema que eu escrevo, meu primeiro poema é Valdir Valdir, que também é o título do poema que ela escreveu. Então, eu assim, de certa forma, sou grata à Maria Lúcia, porque ela, eu considero que ela foi assim a pessoa que me deu, sabe, que me deu um empurrão pra que eu começasse a escrever poemas, porque foi através do poema dela, do que eu li, que eu comecei a colocar o meu sentimento ali.

Quem são as suas grandes referências na literatura, seja na poesia bissexta ou na escrita diária? Alguém em especial te inspirou a começar?

Olha eu sou da terra de Gonçalves Dias, que é um poeta conhecidíssimo na literatura. Então, ele com certeza é a minha referência desde criança. Eu sei de cor o poema de Gonçalves Dias, minha terra tem palmeiras… Então, com certeza, ele é a minha maior referência.

Depois de romper a barreira da gaveta através do Café Literário, os planos mudaram? Você pensa em reunir seus poemas e publicar um livro solo no futuro?

Sim, com toda certeza, este é um sonho para o futuro, publicar um livro solo com os meus poemas.

“Vença a timidez e mande os textos para a equipe do Café Literário pra que seja publicado”

Para encerrar: que conselho você daria para outras mulheres e homens que já passaram dos 40 anos, guardam textos na gaveta por timidez, mas sonham em se expressar pelo mundo?

Olha, esse conselho vai não só para aqueles que passaram dos 40, 30, mas para todas as pessoas que têm algum texto na gaveta e, por algum, têm receio de publicar. O conselho que dou é vá em frente, vença a timidez e mande os textos para a equipe do Café Literário pra que seja publicado.

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