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Ideal de maturidade

História bem contada define e facilita entender a polarização política

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Simpatizantes políticos de uma determinada ideologia acham que o país só terá paz com o fim do bolsonarismo. Os que simpatizam com o ex-presidente Jair Bolsonaro pensam exatamente o contrário. Segundo eles, é o lulismo que atrapalha o Brasil. E você? O que pensa sobre isso? Eu prefiro achar que o convívio entre pessoas, diferentes ou não, independe de receita médica, de bulas, de manifestações contra ou a favor e, principalmente, de discursos públicos ou privados acusando ou defendendo homens públicos com os quais a gente convive, mas não conhece, apoia, mas não confia, elege, mas desconfia até de olhos abertos.

O passo inicial para que essa boa convivência renda algum tipo de medicamento eficaz contra a intolerância e o ódio é jamais esquecer que toda história tem dois lados. Em seguida, é bom sempre lembrar de nossa invariável tendência de ouvir apenas um lado e de acreditar na versão de quem chega primeiro, é mais convincente e tem a cara melhor. Portanto, o pior dos erros não é ouvir apenas um lado, mas ter uma atitude impulsiva com base exclusivamente em parte da verdade dos acontecimentos.

Na política brasileira, isto é um fato que vem determinando as relações conflituosas entre um e outro lado. Por isso, antes de julgar alguém ou sua atitude, é de bom alvitre ter cuidado ao ouvir somente um lado da história. Agindo assim, é grande o risco de qualquer um de nós acabar culpando, condenando e odiando um inocente e absolvendo ou valorizando um mentiroso. Sou do tempo do disco de vinil. Com o bolachão aprendi que só ouvindo os dois lados é que se consegue ouvir o disco inteiro. Portanto, ouvir e avaliar os dois lados são sinônimos de uma boa escolha eleitoral.

No caso do país de Jair Bolsonaro e de Luiz Inácio, ouvir o “outro lado” é fundamental para a democracia e para evitar a polarização extrema, por meio da qual adversários políticos são tratados como inimigos. No Brasil e em qualquer canto do mundo, a política exige diálogo, argumentos, ideias e projetos e não guerra de narrativas. Objetivo final de presidenciáveis da direita, da esquerda e do centro, o eleitor tem o direito de saber de seus candidatos tanto o que lhes convêm quanto o que lhes compromete. Todos precisam saber que narrativas simples se espalham rápido porque, como rastilho de pólvora, criam heróis e vilões mais facilmente.

Se os “inimigos” insistem em entender de forma diferente, a democracia definitivamente não se constrói com batalhas via redes sociais ou pelos horários eleitorais gratuitos. Como a democracia pressupõe diferentes visões de mundo, os conflitos são normais. Anormal é evitar resolvê-los civilizadamente, com argumentos e disposição real para o diálogo. Partindo da máxima de que a verdadeira força de uma nação está na união de seu povo, o ideal de maturidade de cada um dos candidatos ao cargo mais alto do país é contar sua história toda sem pular a parte em que também errou.

A justiça e a verdade não se resumem às nossas escolhas. É claro que nunca escolherei pessoas propensas ao desgoverno. Como vivo e voto com a certeza de que haverá um amanhã, naturalmente opto por aqueles que me prometem democracia. Quando escrevo, não imagino carapuças. Entretanto, se elas servem para alguém, me convenço de vez da obrigação de não condenar inocentes e absolver culpados unicamente por falta de contexto e de visões distorcidas. Na hora de definir o voto, é bom que cada um dos 160 milhões de eleitores busque ouvir todas as partes envolvidas antes de formar uma opinião. A vida e a política são afins: a cada escolha, uma consequência.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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