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Onde está Wally?

Horário político nada gratuito é um circo de horrores

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior* - Foto de Arquivo

Empurrado pelos sábios ventos do destino, aportei avisadamente no Rio de Janeiro – minha cidade natal – exatamente no dia em que o pobre povo brasileiro novamente amanheceu ouvindo e assistindo lorotas, disparates, tolices e sandices das mais toscas. Refiro-me ao horário eleitoral dito gratuito no rádio e na televisão, cuja semelhança com um circo de horrores jamais será mera coincidência. É o que há de pior na política do Brasil. Assistir apenas uma das inserções é mais do que suficiente para nos dar a certeza de que nosso voto tem de ser exportado para praças mais sérias e evoluídas. Os políticos tupiniquins não merecem ser votados por eleitores sensatos, esclarecidos e preocupados com o futuro do país.

Sem medo de errar, com essa turma o futuro está logo ali no ano dez mil depois do “tchutchuca do Centrão”. Que me perdoem os compatriotas que adoram se imaginar do outro lado da telinha da televisão, mas escolher governadores, senadores e deputados federais, estaduais ou distritais entre os que se apresentam diariamente até o dia 29 de setembro (primeiro turno) é como tentar encontrar o Wally nos especiais de Natal ou em dias de enchentes e quedas de encostas. Não gosto do ritmo e jamais ouviria música desse tipo, mas o que vi nos primeiros dias da propaganda política me transportou para o imaginário dos MCs Arlequina, Hisoka e Pennywise, autores do Rap dos Coringas.

Não sei onde alguém pode estar com a cabeça ao compor um treco desses. De qualquer maneira, vale pesquisar a estapafúrdia, desconexa e mal composta letra. Interessante é que ela nada difere do que é mostrado no horário eleitoral. “É uma honra e prazer te receber… Esta noite o show será de enlouquecer porque, aqui no circo dos horrores, nossa maior atração é você. Quando acender os refletores, tudo pode acontecer. E você vai clamar por misericórdia, você vai chorar, gritar de dores, mas a tua dor é a nossa glória…” Deus me livre dessa música, do que ela diz e da maioria dos cidadãos e cidadãs que se apresentam como nossos pretensos representantes. São realmente integrantes do circo dos horrores. É a podre política à brasileira.

Repetindo o gesto de décadas, imediatamente desligo a TV e o rádio. E faço isso porque, sinceramente, tenho pavor de ver ou ouvir os grunhidos (?) gratuitos do Satanás. As primeiras aparições me deram a nítida impressão de que a eleição é uma festa tão profana como o carnaval. A partir da propaganda, são brincadeiras produzidas para enriquecer os que conseguirem passar da casinha inicial. Em síntese, até a abertura das urnas, na noite de 2 de outubro, acompanhar o horário eleitoral é quase um passaporte oficial nos dando o direito de chamar o vizinho de burro e analfabeto político, tretar no grupo da família, ofender, xingar e brigar com antagônicos.

Ver e ouvir as patacoadas também garante a qualquer brasileiro a liberdade de, durante os almoços de domingo, chegar à janela do apartamento, bater panelas e, preferencialmente perto do tio bolsominion, gritar Lula livre. É tempo de aproveitar. Da mesma forma que a proximidade de mais uma Copa do Mundo, o crescimento do futebol da dupla carioca Fla e Flu e do paulistano Palmeiras deixou de ser importante, inclusive para boa parte de seus fanáticos torcedores. O que temos hoje é a “festa da democracia”. A ordem é que ninguém a atrapalhe. Afinal, a patuscada acontece somente de quatro em quatro anos ou de dois em dois anos, o intervalo para os casos das eleições municipais. Então, como diriam os poetas dos horrores, não deixem que a cordialidade e a civilidade estraguem o bestial banquete democrático.

Pois bem, estou perdendo 50 minutos do meu tempo de TV e rádio para a propaganda eleitoral, que de gratuita não tem nada. No período, as emissoras de rádio e televisão têm isenção em Imposto de Renda proporcional ao que elas liberam para os partidos. Conforme a Receita Federal, essa renúncia fiscal, prevista em lei, deve custar ao governo federal R$ 737 milhões. Advinha quem pagará mais essa conta? Todos nós, é claro. Diante disso tudo, minha reação é simples. No melhor estilo Abraham Lincoln, 16º presidente dos Estados Unidos, “melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida”. Quanto ao horário político, lembra aquela conversa entre bêbados: um finge que fala e o outro finge que escuta.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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