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A perder de vista

Horizonte

Publicado

Autor/Imagem:
Castro Oliveira - Foto Francisco Filipino

Horizonte.

A perder de vista diluindo-se no vasto azul do céu e do mar.

Respira fundo alegrando-se com o mundo.

Havia um sentimento de si que o fazia acreditar, lutar e resistir ao que viesse.

Ela deixara-o mas o mundo permanece, impreterivelmente permanente como uma vigília a que temos de assistir, sempre e sempre, enquanto houver luz do sol e luz interior para viver e resistir, viver, o que quer que isso seja, é o que temos defronte…

Horizonte.

A perder de vista diluindo-se no vasto azul do céu e do mar.

Estar ali era não estar.

Vê-la na vela acesa trémula da sua imaginação.

Vê-la a passar e a ser e a existir num tempo, que não era tempo mas um lembro, uma coisa assim com ela dentro dele, diluindo-se no vasto azul do céu do mar…

Sentiu perder-se o olhar a imaginar, a vê-la vivendo-a com a imaginação.

Não, não te quero mais, és demais, excessivo, cheio de arrogância e agressivo, um ser solitário e sem esperança…

Não, não te quero mais…

Amar é uma dança. Quando finda a música acaba e estamos sós a um canto, imaginando como seria, como seria se tudo fosse diferente e já não houvesse tanta e excessiva gente com os seus ruídos, como tudo seria diferente se não tivéssemos ouvidos e fossemos apenas muda cena, em mudos cenários de seda, levemente sonhados a oiros numa cama de dossel palaciana, girando e girando em ciclos sucessivos de encanto, amor e permanente sentir ausente.

Como tudo seria diferente, como tudo seria diferente, sem ter este mundo defronte, apenas, apenas ir além do monte…

Horizonte.

A perder de vista diluindo-se no vasto azul do céu e do mar.

Respira fundo mas ainda se encontra num estado em que apenas se está a lembrar.

Como uma dupla visão.

Exteriormente vê o mundo cão e interiormente o mundo como televisão, mudando de imagem permanentemente, sucessivamente, até se tornar um sentir, um ir, um senti-la permanentemente presente e a fugir.

Ausente agora, só imagem e o mundo lá fora.

Com a brisa a agitar-se dentro daquela mágica hora.

A agitar-se impermanente como todo o mundo e todas as coisas, impermanente como todo o mundo e todas as coisas.

Ela e o tempo, as palavras dela levadas pelo vento, segredadas em recordações douradas entre ilhas e jardins de encanto.

E deslumbrava-o agora aquela tarde estendendo-se ao sol com um diáfano manto defronte.

Horizonte.

A perder de vista diluindo-se no vasto azul do céu e do mar.

O amor pode ser morte que mata devagar.

Sufocava de saudades.

De vê-la chegar com a Primavera e as rosas.

De ouvir as suas doces prosas entre o silêncio, a música breve e o vento súbito das pessoas em redor.

Era amor.

Desde o princípio.

Via-a como um sonho prolongando-se na realidade física.

Alguém que o libertava da solidão interior de ter de ser exterior com o mundo.

Que o libertava com as suas palavras do seu silêncio mudo feito de um sentir abstracto.

Ele era um cacto.

Com espinhos por fora e água por dentro.

Estava ao sol no deserto incerto cacto que era na geral espera.

Esperava a morte nascendo a cada dia para uma nova forma de a ver.

Para que não fosse vazia a maneira de a conceber.

Com aquela dama fugira simplesmente do tédio de viver.

De ter de ser sempre o mesmo com o fim no fim a arder.

Ela, com a sua voz de leite e mel, levara-o, levara-o dali para fundos paraísos do nunca antes visto.

Não, dizia ele, não, resisto…

Ainda tenho o mundo defronte… Ainda tenho o mundo defronte…

Horizonte.

A perder de vista diluindo-se no vasto azul do céu e do mar.

Respira fundo olhando o mundo devagar.

Como se contemplasse cada momento, ausente no presente, aqui e agora.

O passado e o futuro que se queime todo nesta hora.

Quero-a, desejo-a com a minha boca proferindo palavras em bodas de sangue.

Beijava-a agora e a toda a hora se o destino não ma tivesse levado…

E desatou a sangrar com a alma, cabelos ao vento desalmado, olhando as sombras por entre a luz do mundo defronte.

Horizonte.

A perder de vista diluindo-se no vasto azul do céu e do mar.

Que sítio era aquele, o promontório do fim?

Naquele lugar parecia que o mundo o esquecera para sempre, solitário entre o ausente e o vazio planar das gaivotas das praias em redor.

O que era o amor senão um piano a tocar?

A tocar indefinivelmente esbatendo as suas cores e as suas melodias no azul do céu e no sol da sua mente.

Tocava um piano sozinho no promontório do seu destino indefinivelmente, numa ausência ao vento quente.

Como se tudo o que vivera fosse apenas o que lhe aparecera em sucessivas cenas de votadas ao esquecimento, actos esquecidos aquecidos sob a luz do momento.

Quem era sem ela todo aquele aqui?

Um pedaço de viver que de súbito a lembrar perdi, a esquecer-me pelo vento fora, pelo mundo defronte…

Horizonte.

A perder de vista diluindo-se no vasto azul do céu e do mar.

Viver seria… Amar.

Tê-la de volta.

Voltar a unir-se ao calor da sua carne como uma vida que nasce e que morre e revolta e revolta para de novo aqui ter.

O amor que é calor da sua carne unida ao sabor de viver.

E havia paraísos perdidos na sua pele, no seu perfume de mulher casta.

Algo que era mais do que viver, que dizê-lo era pouco e não basta.

Ó o azul da luz na água a reflectir.

Era como um doce cegar em que lentamente nos deixamos ir.

Amar era isso, um consentir.

Um consentir do pedaço de destino que Deus nos deu para abrir e inaugurar um novo pedaço de aqui haver céu.

Aqui nesta peregrina terra do engano.

Onde tudo é dor por fim na ilusão da dor que ainda emano.

Quero amar mais do que a vibração daquele sol a girar, gritar de amor, uivar…

Mas dela só me fica a lembrança como um fogo lento a consumir-se.

Lembro-me dela como se ainda a possuísse, sob a minha pele que dura tanto neste exterior, que é apenas uma sensível afinação pela dor.

E a doce mão da natureza castiga-nos e mostra-nos a beleza como caminho.

Viver seria equilibrar-se entre a dor o furor de vencer o destino.

Além da morte só talvez o amor transfigurado, o sol que vence a escuridão em auroras acima de qualquer fado.

Viver será estar isolado estando permanentemente acompanhado, senão por gente por pensamentos com gente dentro, falando num novo mundo inominado, falando segredos que se ouvem estando tudo calado…

Na ausência e na distância…

Enquanto o mundo se desenrola defronte…

Horizonte.

A perder de vista diluindo-se no vasto azul do céu e do mar.

A enganar-me devagar.

Com as suas histórias de um mundo melhor.

Com as suas lendas de que não há dor.

E eu a amar. Perdidamente…

A amar uma imagem que tenho dela esquecida na minha mente.

Agitando-se como uma vela trémula ao vento.

O que vivi com ela é apenas um lembrar, uma fímbria no manto do meu pensamento…

E tudo passa e passou e passará.

Olho o mar despedaçando-se em ondas sem fim.

No promontório de mim com a vida acabada.

Olho o mar defronte e o céu sou eu a sumir-me no horizonte.

Como esta gaivota que passa.

A solidão de não a ter deixou-me para sempre fora de graça.

Almejando voltar para o mundo que existia quando nela sentia o amar, o amor, os beijos nas praias da ansiedade, as mãos enlaçadas e as peles suadas em ardores e calores de nua liberdade…

Quem me sou agora senão um promontório frio que sofre vazio o bater das ondas da saudade?

Ó meu amor e o fim, não concebo a existência sem ela ser uma extensão de mim.

Que se dane toda a retórica da multidão que apenas existe para comer.

Eu amo-a mais que o sol e as ondas de todo o mar a bater em mim matando-me devagar nestas horas lentas onde lento estou a definhar.

Falta-me o sol e o seu brilho na minha fronte.

Sem ela apenas existo como um uivo ao luar ermo num monte…

Horizonte.

A perder de vista diluindo-se no vasto azul do céu e do mar.

A matar-me devagar como o amor que me não dá água.

Tenho sede de me vingar de alguém por me ter posto assim, talvez os anjos do destino sejam os culpados do desatino que sou em mim…

Porque sofro eu meu Deus que me falta a minha metade?

Era nela que tudo tinha, que em beijos sorvia o travo da liberdade.

Agora, o que vejo defronte?

A solidão aumentando no horizonte e a perder-se na distância.

Toda a minha vida perdeu o rumo e agora sou apenas vento em pensamento, errância…

Para onde mais ir senão para os paraísos a sumir da minha infância?

E as crianças voltavam a brincar ao seu redor.

E velho olhou os netos e naquele vasto horizonte voltou a encontrar o amor, florindo como uma flor, a rosa é amor…

Era ela na ausência que lhe falava numa janela do seu pensamento, oculta numa ténue cor do momento…

Houve um rodopio no vento e tudo voltou a ser apenas o que tinha defronte.

Horizonte.

A perder de vista diluindo-se no vasto azul do céu e do mar.

Voltou a viver, respirou devagar, e brincou com os netos até sorrir vagamente como quem triunfa devagar.

E as rosas ao vento floriram discretamente sob aquele ténue sol quente e ali o tempo deixara de ser tempo, permanentemente…

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