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Olfato precioso

IA apaga feiura original da carteira de identidade

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Maristela Cordeiro

Em tempos de campanha políticas enxertadas por terremotos, tsunamis, tornados, tiros a esmo e calor extremo, aproveitei o início do horário político eleitoral para reavivar meus arquivos mortos. Nesse fim de semana, também conhecido como ontem e anteontem, comecei por remexer meus arquivos interiores. Sem querer, descobri que algumas de minhas melhores lembranças ficaram no passado. Por exemplo, quer melhor prazer do que reviver os bons momentos de experimentador de odores de partes pudendas na boate cossaco? Tempo de olfato aguçado, gosto apurado e calor dobrado. Atualmente, o que dobra é o que garantia meu sucesso entre as cossaquenhas.

Na vitrola, o disco de louvor era exclusivamente para o amor. Hoje, é somente uma exigência mórbida e mercantil do pastor. Modestamente, eu era um craque com as “peladas” e um perna de pau nas canchas futebolísticas. E daí? Uma coisa era uma coisa, outra coisa era – e é – outra coisa. As duas jamais se completaram. E daí? Ainda hoje, o desprazer de uma garantia o prazer da outra. No melhor estilo Jean Paul Belmondo (o feio mais bonito entre os atores que a França já produziu), tinha como inspiração transformar a pouca boniteza em um estandarte de guerra. Achava minha beleza igual à Linha do Equador, isto é, algo que existe, mas ninguém vê.

Na verdade, nunca fui tão feio como meu vizinho da casa dos fundos. Sempre fui autenticamente rústico. O coitado era tão desprovido de beleza que, em um daqueles memoráveis carnavais do século passado, ele foi comprar uma máscara e só lhe venderam o elástico. Sua existência poderia ser resumida em uma única nota musical: dó. Nos dias de hoje, o pobre vizinho seria igual a uma nota de R$ 200,00: valiosa, mas poucos a encontram. Sem medo de errar, digo que aprendi com o tal vizinho que é chato ser bonito. Muito pior é ser feio. Seguindo os ensinamentos do velho Aristarco Pederneira, meu avô paterno, não ligava quando alguém me chamava de feio.

Afinal, a verdade dói, mas passa rápido. Feliz porque chamava atenção, dormia e acordava com o Barão de Itararé bulinando meus ouvidos para me lembrar que quem ama o feio é porque o bonito não aparece. Em resposta silenciosa, dizia a meu espelho que os homens de poucas palavras normalmente são os mais dotados de atributos acalentadores. Não sei se me entendem, mas, por ironia do destino, como fui feito de carne, tinha o dever de mostrar que era pau puro e ainda em estado vegetal. Eis a razão pela qual fui mais exaltado do que humilhado. Aproveitei e aproveito o que posso da lei do retorno. Algo como expectativa no feed e realidade nos stories.

Como na minha época descendente eram apenas cinco homens e cinco mulheres banguelas no mesmo banco da praça, a sorte é que a maioria dos amigos de então adorava brincar de vida: cada um cuidava da sua. Embora nunca tenha sofrido tanto quanto joelho de freira durante a Semana Santa, vivi para agradecer tudo que o inventor do filtro da foto fez por mim. O sujeito não sabe o quanto minha vida ficou mais cara. Haja dinheiro para tanta make. Consciente de que as opiniões alheias têm pouco importância, cresci física e espiritualmente, a ponto de priorizar coisas muito mais interessantes. Por exemplo, decidi ser um sujeito normal e legal. A beleza fica para a próxima vida. Parabéns para mim.

Os tempos da inteligência artificial são outros. Em 2026, ninguém é mais tão feio como na carteira de identidade. Cristiano Ronaldo, Neymar e Vinícius Júnior que o digam. Mais contagiosa do que o coronavírus, a neurose coletiva da atualidade é ser bonito no Orkut, feliz no Facebook, simpático no extinto Twitter e ocupado no MSN. O que fazer se para o homem contemporâneo a melhor forma de evoluir é buscar estradas que não existem? Se a beleza é o néctar da alma, deixemos que eles transformem o hipotético, o irreal em um dos nomes da felicidade. Eis o mistério da beleza! O bom de tudo é que ainda restam pessoas que acham bonito ser feio.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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