Abalo nuclear
Irã vai para o tudo ou nada com a morte do aiatolá Ali Khamenei?
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A morte do aiatolá Ali Khamenei, em meio a ataques dos Estados Unidos e Israel, abriu um vácuo político e simbólico no coração da República Islâmica. Se, como se especula, Teerã sente-se abandonada por parceiros estratégicos como Rússia e China, o regime pode optar por uma escalada de alto risco, transformando luto em retaliação, e retaliação em guerra aberta.
Entre as primeiras decisões está o fechamento do Estreito de Ormuz e a intensificação de ataques contra bases americanas instaladas em países árabes do Golfo. São duas medidas com potencial explosivo militar e econômico.
O Estreito de Ormuz é a principal artéria energética do planeta. Cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente passa por suas águas. Seu bloqueio, ainda que parcial ou temporário, terá efeitos imediatos, como disparo nos preços do petróleo e do gás, pressão inflacionária global, queda nas bolsas internacionais e ameaça à segurança energética da Europa e da Ásia.
Os Estados Unidos dificilmente aceitarão passivamente o fechamento da rota. A Quinta Frota americana, baseada no Bahrein, pode iniciar operações para garantir a “liberdade de navegação”. Isso transformaria o Golfo Pérsico em palco de confrontos navais diretos.
É sabido que o Irã dispõe de uma rede de aliados e milícias, a exemplo do Hezbollah no Líbano, grupos xiitas no Iraque e na Síria, além dos houthis no Iêmen. Assim, ataques a instalações americanas na Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos ou Bahrein podem ocorrer de forma indireta, mantendo certa “negação plausível”.
Nesse cenário, porém, há um risco central, representado por um erro de cálculo. Um ataque que provoque grande número de mortos americanos pode levar Washington a atingir não apenas alvos militares, mas infraestrutura estratégica iraniana, concentrando os bombardeios a refinarias, portos e centros de comando.
Enquanto o Irã se afoga no próprio sangue, a Rússia e a China fazem cálculos frios. E a expectativa de apoio explícito de Moscou e Pequim pode não se confirmar. De um lado, a Rússia está sobrecarregada por seus próprios conflitos e sanções; já a China depende fortemente do petróleo do Golfo e do fluxo comercial estável.
Portanto, essas potências podem oferecer apoio diplomático ou retórico, mas dificilmente embarcariam numa guerra aberta contra os Estados Unidos por causa do Irã. O cálculo é pragmático: evitar um conflito global que comprometa suas economias.
Cenários possíveis
1. Escalada regional controlada
Troca de ataques limitados, guerra por procuração, tensão prolongada, mas sem invasão terrestre. Petróleo caro, mercados instáveis, mas conflito contido.
2. Guerra ampliada no Golfo
Bloqueio efetivo de Ormuz associado a ataques diretos a bases americanas; como consequência, haverá bombardeios maciços contra o Irã e possível envolvimento de Israel em ataques profundos. Paralelamente, há o risco real de confronto naval intenso.
3. Pressão e recuo tático
Sob mediação de potências europeias ou até da ONU, o Irã pode usar a ameaça como instrumento de negociação, sem concretizar bloqueios totais.
4. Ruptura interna
A morte de Khamenei pode desencadear disputas pelo poder entre Guardiões da Revolução, clérigos e lideranças civis. Uma crise interna pode limitar a capacidade de guerra externa.
Entretanto, além desse quadro, há um fator imprevisível. É que guerras modernas raramente seguem roteiros lineares. Um drone derrubado, um navio atingido, um ataque mal calibrado pode desencadear reação em cadeia.
E se o Irã realmente optar pelo “tudo ou nada”, o mundo enfrentará volatilidade energética sem precedentes recentes; surgirá a reorganização das alianças no Oriente Médio; a pressão inflacionária será global; e, o que é mais preocupante, um risco crescente de confronto entre potências nucleares indiretas.
A pergunta central não é apenas se haverá guerra prolongada, mas qual será o limite que cada ator está disposto a cruzar. Vale ressaltar que num tabuleiro onde orgulho nacional, vingança política e cálculo estratégico se misturam, o Golfo Pérsico pode tornar-se, novamente, o epicentro de um abalo sísmico global.
