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Agosto de 1866

Irmãos de armas

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Foi em agosto de 1866, há precisamente 160 anos, a guerra no cone sul do continente americano corria solta. As águas do rio Paraguai arrastavam os cadáveres de dois soldados, um brasileiro, outro paraguaio. Flutuavam lado a lado, que as correntes fluviais são caprichosas, aprontam dessas coisas, aproximam ou afastam a seu bel-prazer inimigos e ex-inimigos. Não iam sozinhos, cada um deles transportava, nos uniformes em frangalhos e nas carnes já em decomposição, pequenos passageiros letais: piolhos, pulgas e outros insetos transmissores das bactérias do tifo. Não se importavam, àquela altura, nenhum mal os poderia atingir. E, como a viagem pelo rio fosse longa e monótona, começaram a conversar. Telepaticamente, é claro, pois nenhum deles conseguia mover os músculos para emitir sons. Estavam mortos, porra!

— Hola, cambá – disse o paraguaio, utilizando um termo de origem guarani que significa “negro”, usado com menosprezo para todos os brasileiros.

— Olá, guarani – respondeu o brasileiro, usando um termo que a propaganda imperial empregava como sinônimo de “bárbaro”, “selvagem”.

O paraguaio não entendeu pissirongas. Era mesmo guarani, filho e neto de guaranis, o guarani fora sua língua materna, estava vencendo a batalha das ofensas. Mas decidiu ser mais educado, para a conversa não acabar antes da hora.

— Como veio parar em nosso rio?

O brasileiro não gostou nada do “nosso”, pois o rio Paraguai nasce no Brasil, em terras mato-grossenses, mas explicou:

— Morri de tifo. Em vez de me enterrarem, meus oficiais colocaram-me no rio com roupas cheias de pulgas e piolhos. Como se não bastassem as minhas…Acho que a ideia era minha carcaça flutuar até vocês e espalhar o tifo entre seus soldados.

— Exatamente o que fizeram comigo! – exclamou o paraguaio. E, incapaz de conter-se:

— Meu exército é comandado por imbecis, e tenho certeza que o seu também! (o brasileiro concordou telepaticamente). Estamos morrendo que nem moscas, de tifo e outras doenças contagiosas, e sem dúvida vocês também (o brasileiro admitiu de novo). A difusão da epidemia não precisa de nós, desnecessário negar-nos um enterro cristão…

— Vocês são cristãos? – espantou-se o brasileiro. – Achei que não passavam de guaranis, quer dizer, selvagens ignorantes.

Só então o paraguaio entendeu a resposta do brasileiro na breve batalha das ofensas, no início da conversa. Ele se enganara, deu empate. Tratou de controlar-se e prosseguiu:

— Entre nossos chefes, o único que merece aplausos é o general López, o Pai da Pátria. Ele…

— O ditador? – cortou o cadáver brasileiro. – O imbecil que se lançou em um mato sem cachorro, em uma aventura que vai arrasar seu país? – E como os mortos têm acesso a todas as informações do futuro (já que não podem alterar em uma vírgula os desígnios dos deuses), informou:

— A guerra vai exterminar mais de 70% da população do Paraguai!

— E 90% dos homens, velhos, e crianças – complementou o cadáver guarani. – Todos dispostos a morrer pelo mariscal. Duvido que o mono Caxias tenha o mesmo apoio.

— Ei, mais respeito com Papai Caxias – rosnou o brasileiro.

As duas carcaças pareciam prestes a sair na porrada — o que seria um milagre, mortos não movem músculos para golpear e além do mais troca de socos é baixaria de viventes —, quando uma corrente fluvial caprichosamente os afastou. A última troca de mensagens telepáticas entre os audazes navegantes foi:

— Adeus, irmão. Vá com Deus ou com o Diabo, tanto faz.

— Adiós, hermano. Vaya con Diós o con el Diablo, es lo mismo.

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