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Vozes da Literatura

J. Emiliano Cruz, o rei dos folhetins, abre as portas da sua oficina de criação

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A coluna Vozes da Literatura de hoje tem a honra de receber o escritor J. Emiliano Cruz, carinhosamente apelidado por seus leitores e pela crítica como “o rei dos folhetins”. Dono de uma escrita que transita com maestria entre a crônica urbana, o conto e o resgate histórico, o autor pertence à chamada Geração X, posicionando-se como uma ponte viva entre a era analógica e a revolução digital. Com um estilo profundamente marcado por sua formação de escritor-historiador, Cruz utiliza ferramentas como a intuição, a associação de ideias e a memória para tecer narrativas que desafiam o tempo, capturando o cotidiano com a precisão de um observador atento e a sensibilidade de um artista da palavra.

Nesta conversa exclusiva, o autor revela como sua bagagem de leitor clássico e sua paixão pela filosofia — considerada por ele uma irmã siamesa da literatura — funcionam como bússolas morais para a construção de seus enredos. Ao longo da entrevista, Cruz defende um lugar de fala pautado no humanismo radical e no frontal inconformismo contra as estruturas de opressão social. Entre reflexões sobre o papel da ficção na era da pós-verdade e a imortalidade dos grandes cronistas brasileiros, ele nos convida a entender como equilibra o rigor dos fatos reais com o tempero do fantástico, transformando a leitura em um permanente e valioso ato de aprendizado.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

A leitura dos clássicos é mais do que uma bagagem valiosa que está sempre presente no banco ao lado do veículo que conduzimos, na verdade, é uma lente que pode mostrar caminhos muito ricos para a pena do escritor. Por outro lado, a leitura crítica sinaliza necessárias rupturas com fórmulas que tendem a engessar uma história. Por exemplo, penso que um enredo pode ter momentos de reflexão, emoção e humor alternadamente, sem perder o sentido e o encanto.

De todo modo, acredito que cada escritor pode e deve traçar os próprios roteiros para beber na fonte da genialidade dos clássicos e desbravar os próprios caminhos bem acompanhado dessas preciosas referências.

Uma ponte que gosto de construir em meus contos: justapor referências de obras clássicas (romances e filmes) e figuras históricas proeminentes, com aspectos políticos e sociais da atualidade e, assim, possibilitar relações entre esses espaços/tempos para uma reflexão do leitor, como ocorre no conto A dupla transmigração de Alexandre, o grande.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Considero a filosofia uma irmã siamesa da literatura, uma indispensável companheira de viagem. No mundo ocidental, isso já começou com os supremos mestres da filosofia e da literatura na antiga Grécia. No ato da escrita, frequentemente a minha mente costuma visitar os postulados de alguns filósofos que iluminaram as minhas reflexões a partir da juventude, sempre buscando um diálogo entre eles e os enredos que desenvolvo. Nesse processo, além dos luminares gregos (Sócrates, Platão, Aristóteles, Heráclito, Parmênides…), costumo humildemente chamar para a minha mesa tanto filósofos da ordem quanto do caos, da assertividade e da ironia, da água e do fogo, entre eles: Sêneca, Kant, Hegel, Voltaire, Rousseau, Hobbes, Marx, Nietzche, Bertrand Russel, Bauman, Sartre, Marilena Chaui. Outrossim, o filósofo romano Sêneca já foi um ilustre protagonista de um conto de minha autoria (Do império romano à América de hoje).

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

A geração X, da qual faço parte, ainda está tentando entender a revolução digital e seus impactos na mente das novas gerações. Somos a ponte entre duas eras e administramos a nossa perplexidade com todas as mudanças de hábitos que ainda estão em processamento. Isso inclui, evidentemente, a questão da leitura e suas novas possibilidades e nichos.

Apesar do atual apelo ao utilitarismo, imediatismo e à leitura de textos cada vez mais sintéticos, tenho a esperança de que a democratização trazida pela internet seja uma conquista que amplie o número de leitores que se encantem pela magia da literatura. Outrossim, acredito que o prazer da leitura das crônicas reflexivas por uma significativa parcela das pessoas sempre vai subsistir, assim como sempre serão imortais Drumond, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Ignácio de Loyola Brandão, Luis Fernando Verissimo e tantos outros.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Penso que a realidade verossímil dos fatos sempre será a base de uma literatura que faça sentido para os leitores. Assim como uma boa história de ficção científica deve partir de postulados reconhecidos pela ciência, uma história que inclua o fantástico e se deseja interessante deve começar pelo cotidiano vivenciado pelas pessoas. Deve haver um elo permanente entre a realidade objetiva e a liberdade criativa do autor que convida o leitor para viajar nas asas da imaginação e do inusitado. O real-real é a carne, o real-fantástico é o sal, este é o esforço a que invariavelmente me proponho, como busquei fazer no conto O homem nu, o fantasma e a mal-estar na civilização.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Na minha visão, o desmascaramento de falsas narrativas históricas sempre será um dever moral da escrita literária que se quer digna, independentemente do estilo de cada escritor. A denúncia das injustiças socais, das infâmias, do estigmatismo e o questionamento de um status quo opressivo e manipulador é a marca dos grandes escritores cujas mensagens se tornaram imortais. Nesse sentido, lembro imediatamente de Émile Zola e sua atuação no caso Dreyfus, bem como frequentemente nas obras de Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Eça de Queiroz, Érico Verissimo e tantos outros.

Incluo também nos meus enredos contestações a visões históricas unilaterais de autores/diretores de cinema motivadas pela visão ideológica e/ou experiência pessoal/intimista do roteirista, onde situações históricas estruturais por demais complexas são vistas apenas por uma lente, caso da Revolução Francesa e do filme Danton, o processo da Revolução, que abordei no conto Meu carrasco favorito – Danton, Robespierre e os (des)caminhos da Revolução Francesa.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Penso que cada escritor tem mais ou menos gosto/facilidade para alternar ou não os gêneros e as técnicas literárias na sua escrita. É uma questão de liberdade criativa que somente a formatação individual do estilo stricto sensu de cada um pode manifestar na sua obra. Como exemplo de escritor que agregou com leveza e brilhantismo mais de um estilo, cito o grande e sempre atual Luis Fernando Verissimo.

Quanto ao conhecimento da estrutura formal, é um aprendizado permanente que todos os escritores — sejam profissionais ou não — precisam desenvolver à medida em que se autodescobrem, todavia, meu processo criativo pessoal tem como alavancas a intuição, a associação e a memória histórica, certamente um cacoete de todos os escritores-historiadores, experiência que exteriorizei no conto César e Napoleão, um bate-papo entre os preferidos dos deuses.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Buscar o seu lugar de fala sempre será um grande desafio para um escritor. Não é um processo simples, pois possui muitas variáveis: existenciais, sociológicas, políticas etc. e se define à medida em que a sua obra avança. Outrossim, um escritor pode ser lido por múltiplos nichos de leitores e ser mais ou menos recepcionado em cada um deles, não obstante, meu lugar de fala sempre será de humanismo radical e de frontal inconformismo com as estruturas de opressão que acompanham a civilização através dos tempos.

Por outro lado, como já ouvi de uma amiga e colega, a reação de cada leitor frente a cada texto — no caso conto ou crônica — é sempre uma incógnita e, a cada retorno, sempre haverá um valioso aprendizado para o escritor que deseja evoluir. Um exemplo de lugar de fala por demais clarividente, explicitei no conto que teve a Guerra do Contestado como tema: Contestado, a guerra esquecida — Deus e o diabo nas terras do sul.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Sem dúvida, o Daniel, nosso escritor cinematográfico, está coberto de razão! A literatura, até por definição antropológica, é um fazer coletivo permanente. Escrever é se colocar no coletivo e fazer parte do todo que nos cerca, influenciando e sendo influenciados a todo instante. Especialmente nos duros tempos em que vivemos, para mim, escrever sem um sentido coletivo, generosidade e parceria seria um ato de sentido muito pobre e uma manifestação de egocentrismo inconcebível.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

O aprendizado qualificado se torna uma espiral exponencial à medida em que nos abrimos para a troca de experiências. Preservada a individualidade e o DNA de cada autor, essa abertura existencial reafirma que somos parte de um todo, assim como as células de cada ser ou os planetas de cada galáxia que estão em permanente conexão. Neste sentido, professo que os meus textos estarão sempre enxarcados de observações colhidas em discussões com colegas, de referências a personagens históricos/ficcionais, de correlações de conjunturas de diferentes épocas e de menções diretas e indiretas a obras cinematográficas universais, até porque esses são os alimentos de um escritor-historiador.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Vejo com muita simpatia e esperança a visão otimista do meu amigo Ed Martínez, o nosso primeiro escritor, um verdadeiro paladino da generosidade literária e da simpatia pessoal, tudo em dó maior. Não há dúvida de que os múltiplos canais da internet democratizaram os espaços do conhecimento, nisso incluídos o incentivo ao surgimento de novos talentos e a ampliação de espaço para quem quer se expressar via arte da literatura. De outra parte, existe um apelo comercial das redes para o imediatismo e a superficialidade das matérias postadas, sendo ainda raros os grandes espaços que cultivam a literatura de forma reflexiva e democrática. Essa nova dialética vai evoluir e resta torcermos para os aspectos positivos da internet superarem os vícios que a mesma traz na sua esteira.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Eu diria que o ato da criação literária é um jogo de espelhos onde o escritor enxerga o reflexo de si mesmo, só que tisnado pelo olhar dos seus leitores.
Essa é uma questão muito interessante na gênese de todos os escritores, seres que ousam transformar os seus pensamentos em entes autônomos (suas obras) que dialogam com o mundo e com eles próprios. Acredito que cada experiência é muito individual, mas, ao mesmo tempo, revela uma necessidade existencial comum de enxergar a si próprio de um ponto de vista exterior. Em outra dimensão, assim como ocorre em todos os gêneros artísticos, escrever é também uma busca para colocar a nossa marca pessoal no lúdico coletivo universal.

Cito como uma resposta emblemática direta para essa excelente pergunta o conto deste autor em coautoria com a escritora Brígida de Poli, recentemente publicado no Café Literário: Literatura em transe – A rebelião dos personagens malditos.

“Eu me vejo muito polímata”

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Eu me vejo muito polímata, posto que, ao lado do escritor, já caminhou o estudante, o militar, o bancário, o professor, o sindicalista, o orador e atualmente o funcionário público. Acredito que as atividades paralelas à escrita profissional ou semiprofissional trazem elementos muito ricos para a elaboração literária. No meu caso, inúmeros contos nasceram de vivências, narrativas de terceiros, observações e experiências no âmbito profissional e também pessoal que cada ambiente me propiciou vivenciar. Na verdade mais poética, acredito que a literatura está sempre latente no dia a dia, bastando a sensibilidade e a atenção necessária para convidarmos essa bela feiticeira para dançar lindamente nas nossas telas e cadernos.

Como uma inconfidência, cito aqui um conto que integra a coletânea à qual publiquei ainda esse ano (A felicidade e os risíveis amores de todos nós) e que se desenrolou exatamente em meio ao ambiente profissional paralelo desse autor: Imaculadas: as noivas de Rio Branco, obra também escrita em parceria com a jornalista e escritora Brígida De Poli.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Sem dúvida, esse é um grande desafio especialmente para os escritores da geração X. Eu ainda estou desenvolvendo essa competência e tenho muito que aprender sobre o tema, posto que existe também o árduo desafio de “convencer” o algoritmo a mostrar o nosso trabalho para os usuários das redes. É um desafio em que, mais do que nunca, as parcerias são fundamentais para uma caminhada profícua. Também nesse sentido, o espaço Café Literário/Notibras está de parabéns pela magnífica emulação que concede aos seus autores.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Na minha opinião, o Café Literário é um exemplo de vanguarda a ser seguido, uma referência luminosa de democracia e de acolhimento para novos autores, pois não apenas abre espaço e acolhe, como também emula e dá confiança para talentos fora do circuito comercial acreditarem no seu potencial e irem à luta com uma tocha de esperança nas mãos. Penso que, quando no Brasil houver dezenas de Cafés Literários, estaremos muito próximos de uma revolução gloriosa na literatura e no status quo que define o perfil cultural do país.

J. Emiliano ao lado de outros escritores do Café Literário (Imagem elaborada por Francisco Filipino)

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Eu emularia o inigualável Chico Buarque “do Brasil”, um gênio imortal ainda em vida, autor de uma obra incomensurável. Desse universo admirável, cito dois singelos versos cujo paradoxo poético e profunda mensagem existencial, encantam, consolam, massageiam as nossas mentes e dão leveza aos nossos corações:

“Eu já nem lembro pronde mesmo que vou,
mas vou até o fim!”.

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J. Emiliano Cruz [Instagram Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS”, disponível no link da Estante Virtual:
.https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

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