Cadeia não é spa
Jair, de apoiador da tortura a um mimizento
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Tenho acompanhado com certo fascínio a lista de pedidos feitos por Jair Bolsonaro, preso há quase dois meses na Superintendência da Polícia Federal. A cada nova solicitação encaminhada ao ministro Alexandre de Moraes, fica mais claro que há uma profunda confusão conceitual em curso. Não sobre direito penal, mas sobre o que vem a ser, de fato, uma prisão em regime fechado.
Bolsonaro parece sinceramente convencido de que está hospedado em algo entre um resort discreto e um spa corporativo. Visitas ilimitadas? Claro. Comida caseira? Evidente. Silêncio absoluto, fisioterapia em horário especial, sob medida, porque a agenda do hóspede é prioridade. E, para fechar com chave de ouro, uma Smart TV com acesso a streaming, Netflix incluída, ainda que isso exija internet. Afinal, quem consegue cumprir pena sem acompanhar uma série?
Alguém, em algum momento, precisa ter essa conversa difícil: prisão não é retiro espiritual, nem clínica de reabilitação cinco estrelas. Regime fechado implica restrições. Implica desconfortos. Implica, pasmem, limites iguais (ou pelo menos parecidos) aos impostos a outros presos que também têm direitos, mas não costumam receber um cardápio personalizado de exigências.
O contraste fica ainda mais curioso quando lembro que estamos falando de alguém que, durante anos, defendeu abertamente a tortura, exaltou práticas de violência institucional e tratou sofrimento alheio como virtude moral. Agora, diante de um ar-condicionado barulhento e da ausência de um controle remoto com botão de streaming, o cenário muda radicalmente. Descobre-se, subitamente, que desconforto incomoda, que privação cansa, que limites doem.
No fim das contas, o problema talvez não seja incoerência. Porque, para quem sempre achou que cadeia era coisa simples para os outros, a surpresa parece ser descobrir que, quando chega a própria vez, não tem Netflix, nem spa, nem mimo. Tem prisão. E ponto.