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Anais dos corredores

Janela indiscreta, ouvidos moucos

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Não sou o típico fofoqueiro, não espero debruçado no parapeito da janela para degustar os deslizes da vizinhança. Mas, Deus, o que posso fazer quando as coisas se esparramam sobre os meus olhos? Cego que não sou, enxergo tudo e, ainda por cima, vejo coisas.

— Isso, Jurandir, provoca mesmo. Quando eu tiver um treco, a culpa vai ser sua.

Dona Santinha, vizinha do terceiro andar, parece apreciar chamar a atenção de todos. Quanto ao destinatário da ameaça velada, trata-se do marido, um quase respeitável senhor dos seus no máximo 60 anos, apesar da carcaça maltratada. Cachaça é um problema, amigo!

— Tu acha mesmo que me engana, Jurandir? Tu acha mesmo que não sei dos seus rolos com aquela fulana? Como é que é mesmo o nome da vigarista?

Na verdade, não me pareceu que a dona Santinha não soubesse o nome da, digamos, outra dona. Diria até que a esposa do Jurandir desejou chamar os holofotes para a sua próxima fala, obviamente como se sentisse a própria Fernanda Montenegro, tamanha a dramaticidade.

— Lindaura! Pois me lembrei, Jurandir! Ou tu acha que estou virando uma caduca? Tu acha isso mesmo, Jurandir?

Lindaura, moradora do 602, um tanto mais jovem do que o Jurandir, pele tratada a cremes especiais, parece ser viúva. Bem, pelo menos é o que consta nos anais dos corredores do prédio. Que seja! Não serei eu a bisbilhotar a vida alheia. 

Final de tarde, juro que por um desses acasos da vida, eis que estava trocando informações futebolísticas com o Zeca, o porteiro, quando passaram, braços entrelaçados, a dona Santinha e o digníssimo Jurandir. Ainda tive o prazer de testemunhar o sorriso estampado no rosto da senhora, de uma elegância sem igual. 

 Boa tarde, Zeca! Boa tarde, Márcio!

O Zeca e eu, ambos felizes e nada surpresos diante da cena digna de matinê, devolvemos o cumprimento. 

E vida que segue. Cada um com seu cada um, e que Deus conserve meus ouvidos sãos para que eu possa continuar apreciando a voz inconfundível do Cauby: “Conceição, eu me lembro muito bem, vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem…”

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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