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A coisa podre

Jazia quieta, contida pelas bordas curvas do local onde se encontrava

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

A coisa podre jazia quieta, contida pelas bordas curvas do local onde se encontrava.

Quieta, mas à espreita. Serpente pronta a dar o bote.

Surgira como matéria inerte, composta por incontáveis cuspidelas de saliva e, sobretudo, de catarro. Mas havia vida nesses materiais, bactérias, vírus e fungos, e, com o tempo, a massa gosmenta se tornou senciente. E, como o tempo não para (obrigado, Cazuza), bem mais tarde incorporou novos atributos. O primeiro foi a consciência de si e de suas necessidades. O segundo, uma aura, um intento de malignidade.

Consciente e maligna, ela esperou, no fundo do recipiente, que algo a libertasse.

Aguardou muito tempo, a ponto de o bolor cobrir sua superfície.

Bolor, mofo esverdeado, mas nenhuma teia de aranha, presença tão usual em outros pontos do aposento, se estendia pelas bordas da abertura. Aranha nenhuma seria louca de construir sua teia em um lugar daqueles.

O berço-prisão da coisa podre era uma escarradeira, objeto obsoleto, quase desaparecido dos grandes centros urbanos. Mas ainda encontrado nos bares dos trechos mais esquecidos do sertão, que nem o que abrigava a massa à espreita.

Se Guimarães Rosa, autor da obra-prima Grande Sertão: Veredas, a tivesse visto, poderia acrescentar mais uma a suas definições de sertão, apresentadas no romance.

“O sertão é onde a coisa podre espera, imóvel e paciente, jagunço na tocaia”.

Ao longo dos anos, houve algumas tentativas de esvaziar a escarradeira. Mas todas fracassaram, os empregados preferiam ser despedidos a se aproximarem daquilo.

Certo dia, porém, o dono do bar ouviu um berro de dor ou susto, vindo de junto da escarradeira. Aproximou-se e viu um homem, pálido como a morte e suando em bicas, ao lado do recipiente, cujo interior reluzia, livre da massa esverdeada e gosmenta.

– Macho, limpaste a escarradeira! Vais receber uma bela gorjeta!

O homem pálido não respondeu. Levava a mão à boca, como se tentasse conter o vômito.

– Conta como fizeste, homem!

Em vez de falar, o cara soltou uma golfada de vômito, que caiu sobre um dos pés do proprietário do estabelecimento, calçado com sandálias. Uma pequena parcela da coisa podre penetrou pela epiderme da vítima e iniciou sua obra de destruição.

Com a pressão em seu peito um pouco menor, devido ao vômito, o desconhecido coberto de suor conseguiu dizer:

– Eu…eu dei uma cuspida, ficou preso um filete de saliva em minha boca. Então aspirei o fio, para cortá-lo, e veio tudo! Ah, meu Deus, vou morrer!

E vomitou de novo, agora mais forte, no peito de um empregado que havia se juntado ao patrão. Em seguida caiu por terra e estrebuchou, borrando-se todo.

Com uma expressão de nojo, o empregado limpou o vômito que cobria o pé do patrão, sua própria camisa e seu peito, e também a merda, que escorria pelas bocas da calça do defunto. Lançou esses materiais no vaso sanitário, sujo mas em bom funcionamento. Era a realização dos sonhos da coisa podre: havia atingido seus férteis campos de caça, e em pouco tempo contaminou todos os detritos ao seu redor.

Enquanto isso, no bar, tombaram o patrão e o empregado. Em seguida, foi a vez dos que atenderam os dois novos defuntos; a espiral macabra ganhava ritmo.

A transmissão aos seres aquáticos demorou um pouco mais, devido à escassez de rios no sertão. Contudo, levadas nos cascos de cavalos, jumentos e bois, parcelas da coisa podre lançadas no esgoto e mais tarde espalhadas pelo chão pedregoso terminaram por atingir lagoas e riachos, depois os rios, em seguida o mar. Por onde passavam, dizimavam a vida fluvial e marinha. Paralelamente, aves carniceiras consumiam as carcaças desses animais condutores, tombados na caatinga, e também morriam. O mesmo aconteceu com os passarinhos que escavavam o solo contaminado, em busca de insetos também contaminados.

Em seguida, foi a vez das populações ribeirinhas, que consumiram peixes vítimas da pestilência. Daí os tentáculos da coisa podre chegaram às grandes cidades nordestinas, e delas ganharam as metrópoles de outras regiões. Em um planeta cada vez mais interligado, os desdobramentos da gosma acumulada em uma escarradeira do sertão atingiram todos os continentes. Era a mais letal das pandemias, corrente inquebrável de contaminação e morte.

Devolvo a palavra a Guimarães Rosa (na verdade, assumo seu estilo, pois, como mencionado, ele não conheceu a coisa podre, nem testemunhou seus efeitos), para mais uma definição de sertão, a mais terrível, a definitiva:

“O sertão é de onde tudo acaba.”

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