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Os pescadores suburbanos

Jeep, dinamite e tainha no verão de 1968/1969

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Dizem que essa história aconteceu no verão de 1968/1969. Teria sido protagonizada por dois cariocas suburbanos metidos a pescadores. Os dois, em uma noite praticamente sem estrelas, se aventuraram para o lado do Recreio. Pois é, dois homens, um Jeep, aquela tralha de pescaria e… dinamite.

— Zé Alfredo, você tem certeza?

— Tenho.

— Tem mesmo?

— Bem, o sujeito que me vendeu disse que funciona.

— Hum! E isso não tem perigo de explodir?

— Ele disse que é só não sacudir muito.

E lá foram os parceiros no Jeep pela estrada de terra esburacada. Se algo desse errado, era provável que o clarão iluminasse toda a mata em volta, que terminava na enseada.

— Pisa leve, Zé Alfredo! Desse jeito, a gente vai pelos ares no próximo tremelique.

— Confia, Celso!

— Confiar? Em você?

— Por acaso já te meti em alguma fria?

— Desde primário.

Encobertos pelo breu, os dois homens chegaram sãos e salvos à praia deserta. Nem se deram ao trabalho de retirar caniços e molinetes. Estavam dispostos a testar outro método de pescaria.

Retiraram com extremo cuidado a caixa de madeira contendo as três bananas de dinamite. Escolheram um ponto da orla que considereram mais provável da existência de um cardume.

— Será que isso funciona mesmo, Zé Alfredo? Está me parecendo uma loucura.

— Calma, meu amigo. Já vamos descobrir.

Zé Alfredo pegou uma dinamite, acendeu o pavio com o isqueiro e jogou a banana dentro d’água. Os amigos se olharam, algo pareceu dar errado até que um estrondo os pegou de surpresa.

Lanternas em mãos, Zé Alfredo e Celso iluminaram a água. Um, dois, três, sete, quinze peixes boiavam. Rapidamente, eles entraram no mar, a água gelada, e pegaram as tainhas e os pampos. Colocaram tudo dentro da caixa de isopor com gelo.

Escolheram outro ponto e repetiram o método. Oito peixes graúdos. O isopor quase lotado, Celso disse que queria tentar. Acendeu o pavio e fez a alavanca com o braço, mas a dinamite escapuliu e foi parar logo atrás na restinga. Assustados, os amigos correram em direção ao mar.

A explosão levantou areia para todo lado. Depois do susto, os companheiros resolveram ir embora. Ademais, teria peixes para o mês inteiro. Juntaram tudo e, já saindo da estrada de chão, foram parados em uma blitz.

Celso tremeu na base, enquanto Zé Alfredo, melhor ator que era, se fez de inocente.

— De onde vocês estão vindo?

— A gente estava pescando, seu guarda.

— Pescando?

— É.

— E conseguiram pescar alguma coisa?

— Algumas tainhas.

— Hum… A minha esposa adora tainha.

Zé Alfredo olhou para o Celso e, em seguida, meteu a mão dentro da caixa de isopor, que estava no assoalho entre os bancos da frente e de trás.

— Pois aqui está, seu guarda. Aposto que a sua digníssima senhora vai adorar.

— Família grande. Você sabe como é, né?

Zé Alfredo fingiu novo sorriso, pegou mais três tainhas e as entregou para o militar, que agradeceu. E, antes de liberar os homens do Jeep, a autoridade lhes lançou um aviso:

— Cuidado com os terroristas. Recebemos notícia de que eles estão agindo nesta noite. Estão jogando bombas por aí.

Apesar do susto e graças ao suborno, Zé Alfredo e Celso conseguiram chegar bem aos respectivos lares. E os dois concordaram que era melhor retornarem ao velho método de pescaria.

Alguns anos se passaram e, então, Zé Alfredo disse que iria se mudar para Brasília. As pescarias ficaram para trás, mas a amizade permaneceu.

— Mas por que Brasília, Zé Alfredo?

— Vantagens econômicas.

— Só isso?

— Bem, o meu pai disse que terei maiores chances na carreira. Sem contar que ficarei livre de encrencas.

— Encrencas? Como assim?

— E ainda pergunta? Puxa, Celso, você só me mete em fria.

— Eu?

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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