De fato e de direito
Jeitinho brasileiro é melhor saída contra imperialismo de Tio Sam
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“De direito”, já estamos no quinto dia do ano novo. No entanto, seguindo o nosso valoroso jeitinho, “de fato” 2026, o ano jorgiano (de São Jorge) começa hoje, dia 5 de janeiro. Como o termo de direito se refere à previsão e aplicação da lei, prefiro sempre a expressão de fato, que trata da realidade concreta, isto é, o que acontece na prática. Portanto, sem delongas, 2026 é hoje e ponto final. Infelizmente, começamos exatamente como terminamos. Ou seja, mudaram somente os métodos. Os objetivos continuam os mesmos.
De um lado do mundo, um déspota forjado no frio da Sibéria, se apossou de parte de um dos países vizinhos e, apesar dos burburinhos internacionais, ficou o dito pelo não dito. Do outro, em nome de Deus, um judeu com cara de Javier Milei dos trópicos, mandou matar milhares de palestinos inocentes. Mais uma vez, estava em jogo a disputa territorial. No alto das Américas, o chamado pedaço do Norte, o buraco é mais embaixo. Além de territórios, o tirano criado nas alcovas do prazer quer as riquezas da terra, da água e do ar de quem lhe desagradar.
Enfim, muito pior do que o Putin siberiano, esse quer ser o dono do mundo. Ele começou proibindo o sagrado ir e vir em seu país, sonhou incorporar o Canadá, a Groelândia e o Golfo do México ao seu já rico quinhão e, agora, à força, tomou para si e para os seus o petróleo venezuelano. Antes de adentrar a fronteiriça Venezuela, se assanhou contra China, atacou o Irã e, de quebra, ameaçou a soberania e determinadas autoridades do Brasil. Voltou atrás, mas ainda não decidiu se fica onde está ou se segue em frente. O que ele não esconde de ninguém é o desejo de comandar, de ser o todo poderoso.
Não sei se me faço entender, mas Júlio César, Marco Aurélio, Nero, Napoleão Bonaparte, Hitler, Benito Mussolini e Augusto Pinochet, entre muitos outros, comandaram exércitos esfomeados e loucos para agradar os chefes na rua, na chuva, na cozinha e na fazenda. Imperialistas e, à época, “proprietários” de grandes potências, quase todos almejavam o mundo a seus pés. Hoje, décadas ou séculos depois, os menos desinteligentes só se referem a eles como caudilhos, cuja primeira, segunda e terceira intenção é se perpetuar no poder. No máximo, como comandantes de orgias. Os mais sérios preferem não comentar nada sobre eles.
Para isso, atropelam a carta da ONU e fecham os olhos para o Conselho de Segurança. A invasão da Venezuela é um claro indicativo de que o avanço russo sobre a Ucrânia e a provável anexação de Taiwan pela China estão liberados. Apesar da “boa química”, o Brasil de Luiz Inácio aguarda os próximos passos do autocrata do Norte. Pouca coisa deve mudar, mas politicamente a história brasileira não é muito diferente do restante dos irmãos do Sul. De fato e de direito, 2026 teve início em 2018, ano do surgimento daquele imperador que sumiu na poeira. Embora seus protagonistas não façam mais parte do estrelato político, alguns ainda se acham astros, galãs e até heróis dos contos do vigário. Tudo porque supostamente mantiveram o vínculo com Tio Sam.
Velho ou novo, 2026 tem de ser o ano em que o povo faça valer a ambiguidade do democrático jeitinho brasileiro. O vocábulo descreve a habilidade de encontrar soluções criativas e informais para problemas ou situações difíceis, muitas vezes contornando regras, burocracias ou normas sociais. Nesse caso, o uso da simpatia e da cordialidade, aliadas a contatos de terceiro e quarto grau, pode servir para exacerbar tanto nossa capacidade de adaptação quanto a resiliência para sobreviver. É o jeito nacionalista contra o imperialismo de Tio Sam. Fazemos isso há séculos. Portanto, desde que haja respeito mútuo, faremos tudo para que seu mestre ache que realmente está mandando. O que não deve ser servido à mesa de Tio Sam é a soberania nacional como sobremesa. Em outras palavras, o que o astro fez, a lenda precisa esquecer.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978
