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Curso de francês

João e Marie

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

João ganhou uma bolsa de estudos para um doutorado em Sociologia, em Paris. Ficou mais que feliz, sempre tivera o projeto de estudar na capital francesa. Não apenas estudar. Visitar museus, frequentar cafés e bistrôs, flanar pelas ruazinhas tortuosas. E se envolver com as nativas, comer todas as que pudesse. E dessem.

De saída, decidiu se matricular num curso de francês. Era gratuito, condição essencial para bolsistas sem muita grana. Tinha colegas do mundo inteiro. Ele levou o curso a sério, estava decidido a transformar seu francês convencional, bem-comportado, dos bancos escolares, em uma língua viva. Um exemplo: ele conhecia o verbo séduire, seduzir; estava mais que na hora de ser apresentado ao verbo draguer, paquerar, em todos os seus tempos, formas e posições sexuais.

No curso, para surpresa sua, verificou que seu francês estava entre os melhores da estrangeirada. Era melhor que o dos árabes, com seus R rolados, e o da grande maioria dos hispano-americanos, incapazes de diferenciar os Vês e o Bês. Foi ganhando fluência, e em pouco tempo conseguia paquerar as gatas do Terceiro Mundo. Mas as francesas, sonho de consumo, permaneciam inatingíveis.

Foi então que conheceu Marie, a professora que acabara e assumir a sua classe. Era baixinha, de olhos vivos, não muito bonita. Mas era francesa, parisiense – isso bastava. Mesmo sem conhecer o verbo, Lourenço passou a dragá-la com tudo.

Certa tarde, conversando com Marie, ela lhe perguntou se gostava de samba.

— Sim, mas há muitos outros ritmos em meus país – e mencionou os discos da série Música Popular do Nordeste, organizada pelo pesquisador e publicitário Marcus Pereira, que levara para a França.

Os olhos da professora brilharam de interesse.

— Gostaria de ouvi-los. Pode levar na minha casa amanhã às 16 h? – e deu-lhe o endereço.

Pontualmente na hora marcada, João tocou a campainha. Trouxera dois dos quatro discos, mais que suficiente para algumas horas de brasilidade musical. E, se os deuses ajudassem, de pecado.

A verdade é que Marie parecia mais que interessada em seu frágil corpinho. Ou talvez fosse impressão sua, ele não conhecia os códigos de dragagem locais. “Vou deixar que ela tome todas as iniciativas”, pensou. “Melhor passar por otário do que por taradão”.

O tempo passava, e Lourenço teve de admitir que a francesa estava a fim. Ela sorria o tempo todo, tocava seu braço ao menor pretexto, sentou-se a seu lado e passou a roçar sua perna na sua. Lá pelas tantas, cerrando os olhos, pediu:

— Baise-moi!

Lourenço sabia que baiser significava beijar; mas, tadinho, desconhecia outros significados do verbo, bem mais apimentados. Controlando-se para não dar bandeira, depositou um casto selinho nos lábios da parisiense. Ela explodiu, exasperada:

— Micom, fildunégue!

“Porra, ela falou em argot, a gíria parisiense, não entendi pissirongas”, pensou o brazuca, desolado. Mas, a cada segundo, o “micom, fildunégue!” soava mais familiar. É, podia bem ser… Ainda hesitante, perguntou em português:

— Me come, filho de uma égua? Você fala português?

— Só na came.

Em seguida, levou João para o quarto e fez dele gato e sapato. Bem mais tarde, enquanto retomavam o fôlego para continuar, explicou que passara as férias no Brasil, em Pernambuco, onde aprendera a doce linguagem do amorzinho tupiniquim; sua última bimbada fora no Recife, ao som de um martelo agalopado de um disco da série Música Popular do Nordeste, daí o seu interesse quando ele mencionou a coleção.

Marie deu lições valiosas ao maravilhado aluno. Ele aprendeu que baiser, além de beijar, significa trepar. E pipe é a palavra francesa para cachimbo, mas também significa boquete. Foram ensinamentos úteis, que lubrificaram o convívio de Lourenço com as francesinhas – as jeune filles rangées, jovens bem-comportadas e, em especial, as nem tanto. Que os deuses as conservem sempre viçosas, buliçosas e generosas, dando mais que chouchou na cerque.

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