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Jogadores geométricos

João, José ou Mané, todos temos o direito de ter nome que quisermos

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Como qualquer brasileiro, sou amante do futebol e apreciador da esteira de nomes estranhos de jogadores. Nesta edição da Copa do Mundo, a 23ª, percebi o que poucos perceberam. O japonês Kubo é o único atleta com nome de forma geométrica a disputar três torneios continentais. Ele superou o argentino Fernando Redondo, o colombiano Juan Cuadrado e o brasileiro do tipo cone Neymar Júnior, cuja figura sólida e geométrica nos faz lembrar o chapéu de palhaço. Afinal, faço minhas as palavras de um companheiro de Notibras e também questiono o fato de um craque bilionário que só joga home office.

Brincadeiras e críticas à parte, esqueci temporariamente o futebol e fui zapear no controle presencial de minha TV Telefokker 100 bipolar, daquelas que funcionam quando querem e só fixa no canal da preferência dela (da TV). Aperta daqui, aperta dali, fui induzido a um desses programas popularescos de emissoras estrogonificamente compromissadas com a desinformação do grande público. Todo serelepe, o apresentador, similar ao moço que atende pelo pseudônimo com o diminutivo de Mouse, dava gargalhadas com a temática do programa. Antes da chamada para os reclames, o cidadão do microfone de cabeça dourada deu um spoiler ou a epígrafe do que ele havia planejado para dividir com suas colegas de trabalho naquela tarde de domingo.

Aproveitando o gancho do colega de Notibras, atentei para o mote do referido apresentador: os nomes estrambólicos, estranhos e, às vezes, salientes com que pais desavisados, desalmados ou filhos de uma mãe com carreira de maminhas batizam seus rebentos. Iniciando a fieira de nomes próprios sem nexo por Um Dois Três de Oliveira Quatro, Privada de Jesus e Fotocópia Autenticada, o dono do palco deixou de ser o artista principal. As denominações ganharam espaço e o narrador se transformou em um mero palestrante. Desisti de assistir, mas fiquei incomodado ao imaginar um pai chegando em um cartório de registro civil para nomear ad eternum um filho ou filha.

Duas dedadas no forever do computador foram suficientes para notar que as alcunhas citadas são fichinhas perto do que há nas certidões de nascimento da turma cinquentona, sessentona e setentona. Os oitentões e alguns noventões preferem somente o apelido inventado pelos mais novos: véio. Pensei nunca registrar o que li, mas, estimulado pelo rato pequeno, entendi a necessidade de mostrar o que nenhum pai deve fazer com os filhos. Há alguns engraçados, como Taís Folhando, Alan Brado, Crispin Tinho, Igor Godinho, Jacinto Pinto e Davi Agra. No entanto, a maioria descamba para o duplo sentido.

Alguém já imaginou batizar o fruto de um amor eterno por Eulavo Pinto, Cuca Beludo, Balan Sarrola, Alan Berrola, Zé Cagado, Tommy Jado, Jé Badura, Cuca Areka, Omar Telo e Daide Costa? Eu nunca! Pior é ficar de longe ouvindo um professor em sala de aula fazendo, de forma séria e contida, a chamada em voz alta: Ana Konda, Taís Condida, Tasha Padona, Vanessa Fadinha, Kelly Inguissa, Mel Bilau, Mila Ambuza, Mila Ascaro, Paula Ambeno, Paula Tejano, Sarah Pinto, Yasmin Asbolla, Inês Kescível e Lucas Trado. Mais do que absurdo, é uma sacanagem eternizar o bullying contra uma prata da casa.

Seria caso de revisão? Acho que não, mas de prisão imediata, em cela individual e sem teto, de modo que o sujeito se veja diariamente obrigado a pedir desculpas a Deus por tal sacanagem familiar. Perdão pelo fufaquifariu de hoje, mas como recomendar ao paraíso um ser humano que, pública e oficialmente, denomina um ente querido de Laís Correga Navara, Licarco Ferro, Kevin Mamar, Kemel Pinto, Jacinto Leite Aquino Rego, Isadora Bocchetti, Peri Kitho, Tomas Turbano e Shana Berta. É ou não é caso de polícia? Claro que sim, a menos que o genitor tenha pensado usar tais nomes somente nos games.

Se acham que não, vou ligar para o apresentador do tal programa televisivo e mostrar que nome é nome e apelido é apelido. Aliás, direi também que, por mais estranho que possa parecer, há filhos que não admitem mudar a denominação dada pelos pais. Há aqueles que, a pretexto de melhorar, sugerem algo inimaginável para o tabelião. O caso mais escabroso ocorreu na cidade cearense de Faris Brite. Utilizando-se da lei que permitia alterações em nomes escabrosos, João Bosta procurou o cartório local para mudar o seu. Diante do estupefacto notário, João Bosta foi categórico ao afirmar que queria ser rebatizado por um nome menos pai d’égua. Qual? José Bosta. E aí? A quem questionar? A Leão XIV, o 267º. papa da Igreja Católica, que nasceu Robert Francis Prevost. Então, por que impedir o Bosta de ser João, José ou Mané?

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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