Taguatinga
Josias, o afeito a caraminholas
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Josias era afeito a caraminholas, como se a verdade lhe provocasse urticária. Um tipo desprezível e, conforme a conveniência, engraçado e até útil. E, talvez por isso, havia quem o defendia, e não era a mãe, que parecia estar com a paciência exaurida das lorotas do filho. Acredite ou não, dona Leiloca, casada com o seu Humberto, ficava encantada com a presença do gajo no seu comércio, um botequim incrustado no agito de Taguatinga, cidade que pulsa cheiro de povo no Distrito Federal.
Certa feita, que não foi ontem nem anteontem, mas alguns dias antes do carnaval de um ano qualquer, lá estava o Josias sentado à mesa de costume no comércio da dona Leiloca. O gajo bebia o de sempre, uma cerveja acompanhada de meia porção de calabresa acebolada. Mastigava com a paciência de um gato de rua, dava um gole profundo na bebida, cofiava o bigode, retirava um cigarro do bolso da camisa engomada, levava-o ao nariz e aspirava o gosto de nicotina, mas logo guardava o mesmo. Era proibido fumar no ambiente.
— Dona Leiloca, bom mesmo era quando se podia fumar até dentro de centro cirúrgico.
A mulher voltou os olhos para o cliente e sorriu. No entanto, seu Humberto, que estava no caixa, não resistiu e provocou o contador de histórias.
— Deixa de conversa, Josias! E quem fumava ali?
— Ué, o médico!
— O médico?
— Sim. E aconteceu quando nasceu meu primeiro filho.
— Filho? E por acaso tu tem filho, homem?
Dona Leiloca, que estava doida para ouvir aquele causo, interviu:
— Humberto, pelo amor de Deus! Deixa o Josias contar, que fiquei curiosa pra conhecer essa história.
— Obrigado, dona Leiloca. Imagino aqui com meus botões como o mundo seria melhor com mais criaturas elevadas que nem a senhora.
Antes de começar a contar o ocorrido, Josias cofiou o bigode e aprumou a voz.
Bem, era uma noite fria de julho lá em Porto Alegre, quando Dolores, minha amada Dolores… Que Deus a tenha em bom lugar. Pois lá estávamos nós dois debaixo da coberta, quando a bolsa estourou.
Foi uma correria danada até o hospital. Bastou chegarmos, colocaram a Dolores, com aquele barrigão sem tamanho, numa maca e a levaram para a sala de cirurgia. Como não sou dos mais valentes, preferi esperar do lado de fora. E era um cigarro atrás do outro. A sorte é que tenho por hábito levar duas carteiras de reserva e uma em uso. Então, estava abastecido mesmo se o parto durasse até de manhã.
Depois de caminhar quilômetros naquele pequeno corredor e tragar que nem Preto Velho, eis que o cirurgião abriu a porta e me perguntou se eu tinha um cigarro. Lógico que tinha. E foi aí que a coragem me chegou como visita inesperada em hora inapropriada.
— Se tenho? Doutor, mesmo se não tivesse, corria ali e comprava pro senhor.
— Pois me dê um, que deixo você ver o seu guri.
Acordo firmado, entrei na sala de cirurgia e lá estava a minha Dolores toda sorridente com o nosso piá agarrado no seu peito. E como o moleque sugava.
Como trato é trato, peguei um cigarro e o coloquei nos lábios do doutor, que ainda precisava fechar a barriga da Dolores. Era uma tragada, um ponto e uma baforada. E rapidinho não tinha mais tripa de fora. E o médico ainda deu uma queimadinha na beiradinha de um dos pontos que ficou grande além da conta.
Terminada a história, Josias deu o último gole na cerveja, pagou a conta e, antes de se despediu, pegou o cigarro no bolso, o levou aos lábios e disse:
— Bem, meus amigos, preciso ir. Não é minha culpa, mas vocês sabem que o cigarro e eu temos uma amizade de décadas e, mesmo sabendo que uma hora um de nós mata o outro, preciso fumar. Até a próxima!
Mal Josias saiu do recinto, dona Leiloca sorriu e disse para o marido:
— Humberto, o Josias parece até que possui licença poética pra mentir.
— Que nada! Esse aí mente num minuto o que o Diabo não acompanha um mês no pandeiro.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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