Meu Brasil pornofônico
Jurandir leu a notícia no jornal e ficou imaginando o que poderia ser
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Disco erótico brasileiro? Jurandir leu a notícia no jornal e ficou imaginando o que poderia ser.
Canção erótica, erótica mesmo, ele só conhecia Je t’aime… Moi non plus …, de Jane Birkin e Serge Gainsburg, descrição musical de uma transa. Foi então ao You Tube garimpar AfrodisíacA, de Iara Rennó, e gostou do que ouviu. Versos como “Dois devassos atrás dos prédios, amassos, mãos nos meus peitos e um dedo médio por baixo” despertaram sua libido, mas ficou um pouco insatisfeito. Não que esperasse coisas mais cabeludas, e sim algo diferente, talvez mais popular…
Jurandir recordou, com um sorriso, as primeiras musiquinhas de sacanagem, escutadas antes dos 10 anos de idade. Pérolas como “Mariazinha do bole-bole, peitinho duro, bundinha mole…”, destinadas a dar uma sacudida nos hormônios de pré-adolescentes e fazê-los entrar em campo. Lembrou depois das paródias musicais que criara na adolescência, sozinho ou com seus amigos. Uma delas, inesquecível, fora feita para a marchinha Pó de mico, sucesso desde o carnaval de 1963. Sua primeira e única quadra (depois vêm os três versos do refrão) é a seguinte:
Vem cá seu guarda
Bota pra fora este moço
Que está no salão brincando
Com pó de mico no bolso
Jurandir pastichou de bate-pronto:
Vem cá seu moço
Bota pra fora esse guarda
Que está no salão brincando
Com o cassetete pra fora da farda.
Com todas essas lembranças, seu sorriso abriu-se. “Algumas cantiguinhas e paródias eram bem engraçadas, misto de safadeza, humor e até mesmo inocência… No fundo, eram pornochanchadas musicais!”
De repente, ele percebeu que era a falta dessa mistura bem brasileira que o incomodara em Afrodisíaca. “Um toque de pornochanchada ia bem, ornava”, pensou em voz alta. “Ah, se a gente pudesse compor e cantar abertamente, sem repressão, paródias e musiquinhas de sacanagem…”
Jurandir não sabia, mas naquele momento, por todo o Brasil, milhares de pessoas que haviam lido a notícia ou escutado o disco de Iara Rennó formulavam o mesmo pedido. E, só de malvadeza, os deuses brazucas resolveram atender.
Os primeiros sintomas do Brasil pornofônico passaram quase despercebidos. Nas rádios, lives nas redes sociais e bailes funk, a moçada pegou mais pesado do que o habitual – mas não muito, porque o teor de barbaridades já era elevadíssimo. Mas as serenatas, quase desaparecidas nas metrópoles, mas ainda realizadas nas noites de muitas cidadezinhas brasileiras … ah, as serenatas assistiram a um show de explicitude! Por vezes, bastava mudar pouca coisa, duas ou três palavrinhas, para desencadear o terror do apocalipse entre as pacatas famílias do interior.
Um clássico das serestas como Abre a janela, por exemplo, teve alterado apenas o verso “E vem dizer adeus a quem te adora”. Nas noites interioranas, o seresteiro, pornofônico involuntário, chegava junto à casa da amada, dava um pigarro, enchia o peito e soltava: “Abre a janela formosa mulher, e vem fazer barba ou cabelo ou bigode com quem te adora…” O pastiche variava, é evidente, conforme as preferências da moça, e utilizava os termos mais escabrosos possível (omitidos aqui, ou este conto não seria publicado). Era o suficiente para, dentro dos lares, avós desmaiarem, mães fuzilarem as filhas com os olhos (embora, muitas, no fundo, sentissem uma pitada de inveja) e pais saírem armados, para acabar com o fiodeumaégua que havia seduzido e feito tudo aquilo com sua linda e casta princesa!
A saia justa ficou apertada, mas ninguém chegou a ser morto. Namoros e transas ocasionais continuaram a ocorrer. E a pornofonia também. As moças ameaçavam os caras: “Se você contar o que a gente faz, não faço mais”, eles juravam que nunca mais cantariam sacanagens sobre elas, mas coitados, não podiam impedir, eram joguetes dos deuses… E na primeira oportunidade as revelações íntimas por meio de paródias voltavam, cada vez mais cabeludas.
Com o tempo, as famílias do interior e das grandes cidades aceitaram os pastiches pornofônicos e passaram a divertir-se com eles – desde que tivessem por alvo as filhas dos outros, é claro! Paródias indecentes atraíam milhares de ouvintes nas rádios, recebiam milhares de likes nas redes… Foi instituído o prêmio Linguinha de ouro – nome duplamente sugestivo, pois as línguas servem para falar, cantar, sentir gostos e outras coisinhas – para a paródia mais elaborada, ou engraçada, ou excitante (sim, havia taradões e taradonas de plantão que ficavam na ponta dos cascos com essas estrofes joviais, quase inocentes, pornochanchádicas).
Jurandir participou do primeiro festival pornofônico Linguinha de Ouro e, com sua voz de sessentão, rouca pelo cigarro e pela birita, interpretou a marchinha Pó de mico e, logo em seguida, O cassetete do guarda (título sugerido para o “seu” pastiche). Não venceu, nem se classificou entre os finalistas, mas realizou um sonho que acalentava desde os carnavais dos anos 1960, quando era forte, a vida, um brinquedo pra ele, e dava três sem tirar de dentro.