Sem fé, com atenção
Kami, o sagrado discreto do povo japonês
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Não foi no templo que encontrei o kami. Foi no instante em que o vento atravessou o bambuzal e fez um som que não pedia tradução. Um sussurro antigo, desses que não explicam nada, apenas lembram.
O kami não desce do céu. Ele já está aqui. Mora na dobra do dia, no intervalo entre o passo e o chão, na água que corre sem saber para onde vai — e ainda assim chega.
Aprendi cedo que o mundo não é vazio. As pedras escutam. As árvores guardam memórias que não cabem em livros. Há algo na montanha que não se move porque sustenta. Há algo no rio que nunca para porque precisa ensinar.
O kami não exige fé. Exige atenção.
Quando inclino o corpo diante do silêncio, não estou rezando. Estou pedindo licença. Cada gesto pequeno — lavar as mãos, bater palmas, respirar fundo — é uma forma de dizer ao mundo: eu vejo você.
Dizem que existem milhões de kami. Talvez seja exagero. Talvez não. Cada rosto amado que se foi e ainda permanece. Cada casa antiga que resiste ao tempo. Cada sombra projetada no fim da tarde, quando o sol já não queima, apenas se despede.
O kami também se esconde na imperfeição. No telhado quebrado, no copo trincado, na cicatriz que não fecha completamente. Nada precisa ser eterno para ser sagrado. Basta estar inteiro naquele segundo.
Não há pecado aqui, apenas desequilíbrio. O erro não é cair, é esquecer o chão. O ritual não apaga a dor, mas devolve o eixo. Como quem arruma a sala antes de receber uma visita invisível.
Às vezes penso que o kami é só isso: a consciência de que não estamos sós no mundo, mesmo quando ninguém responde. Que a vida observa enquanto passamos, e espera — paciente — que passemos com cuidado.
Ao fim do dia, quando a cidade silencia por um instante improvável, sinto que algo permanece acordado. Não me julga. Não promete nada. Apenas está.
E isso, curiosamente, basta.