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Generosidade

Lágrimas que alimentam

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Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Quando a tarde escurece sem aviso, o céu não chora de tristeza. Chora de generosidade.

As primeiras gotas caem tímidas, como quem pede licença antes de entrar. Tocam o telhado de zinco com um tamborilar leve, quase um pedido de perdão por molhar o que estava seco. Mas a terra não se ofende. Ela abre os poros, ansiosa. Bebe. Cada lágrima que desce é uma promessa antiga, repetida desde o primeiro plantio do mundo.

Eu fico olhando da varanda, descalço, sentindo o cheiro que só a chuva molhada de terra vermelha sabe fazer. É cheiro de começo. De semente que acorda. De casca que se rompe em silêncio.

Lá no canto do quintal, onde o milho foi semeado há duas semanas, as gotas escorrem devagar pela superfície rugosa do solo. Parecem dedos de mãe alisando a testa de um filho febril. A semente, lá embaixo, no escuro úmido, sente o toque. Estremece. Incha.

Rompe a própria prisão. O cotilédone se abre como mãozinha que se estica depois de um longo sono. A raiz desce, faminta. O broto sobe, confiante.

As lágrimas da chuva não distinguem. Molham o feijão do pobre e a roseira do rico.

Regam o milharal que vai virar pão e a mandioca que vai virar farinha. Não perguntam se a semente é merecedora. Apenas caem. E caem. E caem. Até que o verde rompe a crosta marrom e diz: estou vivo.

Dias depois, quando o sol volta tímido (como quem chega atrasado à própria festa), o que era semente vira haste, vira folha, vira espiga, vira fruto. E um dia, sem alarde, aparece na nossa mesa: o arroz soltinho, o tomate vermelho que estoura na boca, a goiaba que pinga mel quando a cortamos.

A gente come e esquece de agradecer às lágrimas. Esquece que cada garfada carrega uma chuva antiga, uma semente que chorou para nascer, uma terra que se deixou molhar sem reclamar.

Mas a mesa sabe. A panela sabe. O pão quente sabe.

E, em silêncio, enquanto mastigamos devagar, a vida nos sussurra: tudo o que te alimenta nasceu de uma lágrima que caiu sem fazer alarde.

Então, quando a próxima chuva chegar, não corra para dentro. Fique. Deixe as gotas molharem seu rosto também. Talvez, quem sabe, alguma semente adormecida dentro de você esteja esperando exatamente essa carícia para acordar.

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