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Cama?

Lapsos

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Um conto (quase) junguiano

Começou por um ato falho, daqueles pelos quais o inconsciente traz à tona desejos reprimidos – os chamados lapsos freudianos.

Um parlamentar do bloco progressista, ao criticar a falta de leitos nos hospitais públicos, burilou uma frase de efeito: Todo brasileiro tem direito a uma cama! Era o que ele pretendia dizer, mas o que saiu foi: Todo brasileiro tem direito a uma xana!

Os deputados conservadores lançaram-se com unhas e dentes contra o esquerdista taradão, mas verificaram, mortificados, que também não conseguiam pronunciar a palavra cama. O primeiro a subir na tribuna apontou dramaticamente para o envergonhado adversário e sapecou: esse imoral chamou cama de xana! E, lógico, saiu uma tautologia: chamou xana de xana, a = a. Mais correto, impossível.

Os demais congressistas nem ousaram subir à tribuna. Cada um reuniu seus muitos assessores e pronunciou baixinho, diversas vezes, a palavra cama. E perguntou-lhes, num misto de esperança e temor:

– Quequiocês ouviram?

Silêncio total nas rodinhas. Mas sempre pintava um aspone mais ousado, que dizia:

– A gente ouviu coisa feia, dotô.

(O que é uma enorme injustiça, em geral são uma gracinha.)

O lapso ultrapassou as paredes do Congresso, tomou conta das redes sociais – onde nenhum ativista conseguiu mais digitar a palavra cama, e sim a outra – e chegou às famílias. Multiplicaram-se as situações embaraçosas, quando as mães mandavam as crianças pra cama. E as perguntas igualmente embaraçosas, do tipo “Manhê, que qui é isso que você falô?”, respondidas com rispidez: ”É leito, menino, já pro leito. E de boca fechada, senão leva um tapa na bunda!”

A sociedade passou a identificar com rapidez novos lapsos, a alertar sobre eles pelas redes sociais e a fugir deles como o diabo foge da cruz. Mas então despontaram as lacanagens. O termo remete – em parte, a outra parte salta aos olhos – ao francês Jacques Lacan, psicanalista freudiano, para quem a interpretação linguística era a única possível na psicanálise. Por maldade dos deuses, sem jamais ter lido Freud ou Lacan, a tigrada lacanizou.

A coisa, mais uma vez, começou no Legislativo. Um deputado federal do Centrão discursava quando parou, tremeu como se recebesse uma entidade e mudou de tom. “Vossas Excelências aprenderam com Lacan, em referência aos lapsos, que ‘palavras que tropeçam são palavras que confessam’. As minhas vão tropeçar e confessar”. E admitiu tudo, desde desvio de verbas até encoxar a avó no tanque de lavar roupa. Enquanto muitos congressistas, indignados, perguntavam quem era o fiodeumaégua do Lacan, sucediam-se na tribuna as confissões, todas citando o mestre de Paris. O fenômeno alastrou-se como fogo no mato seco, e nas famílias foi uma desgraça.

Os psicanalistas, em especial os lacanianos, ficavam indignados com o termo “lacanagem”, insistiam que o pensamento do mestre era muito mais cheio de camadas que as canhestras citações-confissões dos botocudos, mas se mostravam incapazes de explicar o que ocorria.

E então irromperam, nos céus do Brasil, as imagens dos arquétipos, enigmáticas, mas cheias de significado. Imagens de heróis, deusas-mães, sábios e tantas outras; e figuras deslumbrantes associadas a elas, tais como mandalas multicoloridas e as lindas capas criadas pelo delírio de Arthur Bispo do Rosário, projetadas de um horizonte a outro. Imagens primordiais guardadas no inconsciente coletivo, transmitidas de geração em geração, os arquétipos contribuíram para desencadear tempestades psíquicas entre a população. Pouco a pouco, lapsos freudianos e lacanagens ficaram para trás, e os brasileiros seguiram pelo caminho da cura ao (re)aprenderem a sonhar.

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