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É só uma fase?

Le Breton e o corpo que pediu demissão

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

O corpo avisa.

Primeiro discretamente.

Depois com certa insistência.

Depois ele simplesmente perde a paciência.

Cansaço.

Insônia.

Dor.

Irritação.

Falta de concentração.

E nós respondemos:

“É só uma fase.”

O corpo, aparentemente, não recebeu o memorando.

Le Breton nos ajuda a compreender que o corpo não é apenas matéria biológica. Ele é experiência, linguagem, relação e presença no mundo.

O corpo sente aquilo que a racionalidade tenta administrar.

Vivemos em uma sociedade que exige produtividade permanente e depois fica surpresa quando o corpo apresenta reclamações trabalhistas.

Queremos funcionar como máquinas.

Mas somos organismos.

Temos limites.

Precisamos dormir.

Comer.

Respirar.

Parar.

E, eventualmente, ficar quietos.

Existe uma arrogância contemporânea em acreditar que podemos negociar indefinidamente com nossos limites.

Até o corpo dizer:

“Não.”

E, quando ele diz não, não adianta argumento.

Não existe reunião de emergência.

Não existe planilha.

Não existe “só mais essa semana”.

O corpo não lê e-mail.

Talvez seja preciso reaprender a escutá-lo antes que ele precise gritar.

Porque algumas coisas que chamamos de fraqueza talvez sejam apenas sinais de que estamos exigindo demais de uma existência que nunca prometeu funcionar sem descanso.

O corpo não é nosso inimigo.

Talvez seja justamente a parte de nós que ainda sabe quando já foi demais.

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