Decisão ética
Lealdade a quem sangrou primeiro
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Reconectar-se com quem nos machucou não é um gesto neutro. É uma decisão ética. E, muitas vezes, é uma traição silenciosa à versão de nós que sofreu.
Porque aquela que chorou, adoeceu, se desorganizou por dentro, não era fraca era verdadeira. Ela acreditou, insistiu, suportou além do razoável. Reabrir a porta para quem causou esse estrago não é maturidade automática, nem prova de perdão elevado; às vezes é apenas a recusa em reconhecer o próprio limite.
Nós fomos ensinadas a romantizar a reconciliação. A achar bonito “dar outra chance”, “entender o lado do outro”, “não guardar mágoa”. Mas pouco se fala sobre a violência de pedir que alguém volte a um lugar onde precisou se despedaçar para sair. Pouco se fala sobre o quanto isso custa.
Judith Butler nos lembra que somos constituídas pela vulnerabilidade. Mas vulnerabilidade não é exposição infinita. Há dores que não pedem superação pedem distância. E há pessoas que não precisam ser odiadas para serem definitivamente afastadas.
Se reconectar pode parecer perdão, mas muitas vezes é só repetição. Repetição do ciclo, do dano, da assimetria. E repetir não é amar melhor; é ignorar o aprendizado que o sofrimento deixou.
Ser leal a si mesma é reconhecer que a dor foi real. Que o impacto existiu. Que algo em nós precisou ser reconstruído depois. Voltar para quem causou a ruína é pedir que essa reconstrução se curve, se explique, se diminua.
Nós não precisamos manter vínculos com quem nos ensinou o limite. O aprendizado já aconteceu. O corpo já entendeu. A memória já sabe.
Honrar quem sofreu é proteger quem somos agora. É escolher não negociar a própria dignidade em nome de nostalgia, culpa ou carência. E isso não é rancor.
É respeito.