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Vínculos

Lealdade não é tema proibido na discussão

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Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma conversa que sempre fica para depois: seus amigos deveriam ser próximos do seu ex? Ou de alguém que te machucou? A gente costuma fingir maturidade moderna, dizer que “somos adultos”, que “ninguém é dono de ninguém”. Tudo muito civilizado. Mas no fundo há uma pergunta ética que evitamos encarar.

Lealdade é uma palavra antiga, quase fora de moda. Soa dramática. Soa possessiva. No entanto, nas Ciências Sociais, vínculos não são neutros. Georg Simmel já apontava que as relações sociais formam redes de pertencimento que estruturam confiança. Confiança não é sentimento abstrato, é capital relacional.

Quando alguém que testemunhou sua dor mantém proximidade íntima com quem a causou, algo se desloca. Não se trata de controlar amizades.

Trata-se de coerência simbólica. Pierre Bourdieu diria que os campos sociais operam por alinhamentos. Estar perto é também tomar posição, mesmo que silenciosamente.

A cultura contemporânea, muito influenciada por uma ética individualista, nos ensina que cada relação é isolada. “O que aconteceu entre vocês não tem nada a ver comigo.” Mas tem. Porque laços produzem reconhecimento. E reconhecimento implica considerar a experiência do outro como legítima.

Hannah Arendt lembrava que o espaço público é onde nossas ações ganham significado. Manter vínculos com alguém que feriu quem você chama de amigo é também uma ação. Pode ser conciliadora, pode ser pragmática, pode ser estratégica, mas nunca é neutra.

Claro, a vida não funciona em tribunal moral permanente. Há contextos compartilhados, histórias anteriores, círculos sociais complexos. Nem tudo é simples. Porém, evitar a conversa não elimina o desconforto. Apenas o empurra para baixo do tapete da “maturidade”.

Talvez não seja uma questão de proibir, mas de perguntar: o que significa amizade para nós? É companhia conveniente ou é compromisso ético mínimo? Lealdade não precisa ser dramática, mas precisa ser clara.

No Nordeste a gente aprende cedo: amizade que não sustenta na adversidade vira coleguismo. E coleguismo é útil, mas não é abrigo.

Talvez não estejamos prontos para essa conversa porque ela exige que escolhamos. E escolher sempre revela onde estamos de fato.

Mas amadurecer também é isso: entender que neutralidade, em certas situações, é apenas conforto bem-disfarçado.

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