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O Lado B da Literatura

Livro volta à cabeceira com juras de amor eterno

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Clara Vilella* - Foto Editoria de Artes/IA

Durante algum tempo, houve quem decretasse a morte do livro. Primeiro disseram que seria a televisão. Depois vieram os computadores, os celulares, as redes sociais e essa avalanche de informações que cabe na palma da mão. Parecia não haver mais espaço para aquelas páginas que exigem silêncio, atenção e uma certa entrega. Felizmente, os profetas do apocalipse literário erraram, porque o livro está voltando à cabeceira.

Não necessariamente como peça de decoração, daquelas que acumulam poeira ao lado do abajur. Há sinais de uma redescoberta do prazer de ler — especialmente daquele velho ritual de abrir algumas páginas antes de dormir, quando finalmente diminuem os ruídos do mundo.

Talvez seja justamente o excesso de telas que esteja empurrando muita gente de volta para o papel. Passamos o dia recebendo mensagens, assistindo a vídeos de poucos segundos, percorrendo manchetes, respondendo a notificações e deslizando os dedos por uma infinidade de conteúdos que desaparecem quase na mesma velocidade em que surgem. Sabemos um pouco de tudo, mas frequentemente não nos aprofundamos em quase nada.

Já o livro oferece o contrário, porque pede tempo e talvez o tempo tenha se transformado no maior luxo deste século.

Quem abre um romance precisa acompanhar personagens, compreender suas angústias, imaginar cenários e esperar o desenrolar da história. Quem escolhe uma biografia atravessa a vida de alguém. Quem mergulha em filosofia aceita conversar com perguntas que provavelmente não encontrarão respostas em quinze segundos.

Ler exige concentração, uma coisa que o mundo digital tenta nos roubar diariamente. E há algo particularmente bonito na imagem de um livro sobre a mesa de cabeceira. Ele permanece ali, paciente, sem emitir sons, sem vibrar, sem acender sozinho. E mais: livro não cobra resposta, não pergunta onde você está e não avisa que alguém publicou alguma coisa. Ele simplesmente espera.

Pode ser Machado de Assis, Clarice Lispector, Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Fernando Pessoa, Dostoiévski ou um escritor desconhecido descoberto por acaso numa livraria. Pode ser romance, poesia, história, política, espiritualidade, ficção científica ou uma velha edição encontrada no fundo de um sebo. Isso pouco importa, porque o fundamental é que haja páginas esperando por olhos curiosos.

Também existe um componente afetivo nessa retomada. Livros carregam marcas, como uma dobra no canto de uma página, uma frase sublinhada, uma dedicatória escrita décadas atrás. Alguns guardam até cheiros capazes de devolver pessoas e lugares que julgávamos esquecidos. Já um arquivo digital dificilmente envelhece conosco dessa maneira.

Há livros que atravessam gerações. Pertenceram ao avô, passaram para o pai e chegaram ao filho trazendo anotações feitas por mãos que talvez já não estejam aqui. Nesse instante, ler deixa de ser apenas absorver palavras e permite conversar com fantasmas queridos.

Talvez por isso seja precipitado imaginar que a tecnologia derrotaria definitivamente o papel. Ela mudou nossos hábitos, facilitou o acesso ao conhecimento e colocou bibliotecas inteiras dentro de pequenos aparelhos. Isso é extraordinário. O livro eletrônico também é livro, e o audiolivro abriu outras portas para a literatura. Não existe razão para transformar formatos em inimigos.

Mas há uma diferença entre consumir informação e mergulhar numa história, e o leitor sabe disso, como também entende que algumas páginas conseguem fazer aquilo que nenhuma sequência frenética de vídeos consegue: interromper o mundo ao redor.

De repente estamos em Macondo ou no sertão de Guimarães Rosa. Caminhamos pelas ruas do Rio antigo com Machado de Assis, sofremos diante das inquietações de Clarice e viajamos por oceanos que nunca atravessamos e conhecemos pessoas que jamais existiram — embora, depois de algumas dezenas de páginas, pareçam mais íntimas do que muitos conhecidos reais.

Esse é um dos milagres da leitura, onde um homem sozinho em um quarto pode carregar uma multidão dentro da cabeça. E há ainda um detalhe precioso. É que quem lê, aprende a ouvir. Por fim, um lado ainda mais realista: algumas das melhores viagens da vida começam sem que seja necessário sair da cama.

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*Maria Clara Vilella é professora aposentada de Arte Contemporânea

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