Curta nossa página


Voz de alcova

Locutores

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Tem mulher que sente atração por sujeito boa pinta, por atleta, bad boy, cara inteligente, nerd, o escambau. Para Rose, uma mulher de 45 anos com tudo em riba, os hormônios entravam na avenida, saudavam o público e pediam passagem quando escutava uma voz grave e melodiosa. Isso era mais que justo: seu traço mais sedutor não era a bunda, ainda durinha, ou os seios que desafiavam a lei da gravidade, ou as longas pernas, ou o sorriso cativante. Era a voz melodiosa, uma voz de sereia, que enlouquecia seus parceiros nos jogos do amor.

Em resumo, ela gostava de atingir o orgasmo nos braços de um homem, mas gostava ainda mais de sexo virtual. Descobrira esse prazer durante a pandemia e continuava fiel a ele. Não apreciava muito mostrar-se despida para um quase desconhecido, ou vê-lo chegar ao clímax a milhares de quilômetros. Era a voz, o roteiro da trepada, as palavras sacaninhas murmuradas por ela e por ele antes, durante e depois da transa, que a faziam enlouquecer. Em tais circunstâncias, não procurava o parceiro mais bonito, ou o de barriga de tanquinho. Buscava o de voz mais sedutora, que a fizesse tremer nas bases e ficar toda molhadinha.

Certo dia, Rose conheceu Amaury numa rede social. Adicionaram-se no whatsapp, flertaram em sucessivos posts. Então ele mandou um áudio – e ela derreteu. Pediu pra ligar, ele aceitou:

— Que voz linda que você tem, Amaury!

— A sua também é muito bonita, Rose. Sou locutor de…

— Não fale, não é importante – cortou ela. – Você vai ser meu locutor. Só meu – e deu uma guinada na conversa. – Olha, jogo aberto, papo reto, adoro sexo virtual com homens de voz de alcova. Quero fazer com você. Tudo bem?

— Claro que sim, gata.

— Olha, meu macho, vou dirigir nossa primeira transa, pra você ver como eu gosto. Amanhã a gente faz de novo e você conduz. OK?

— OK, taradinha.

— Então vamos lá, meu locutor.

Ela começou pelo beijo, o entrelaçar de línguas, as mordidas recíprocas no lábio inferior. Depois contou como um despia o outro, como se tocavam mutuamente lá embaixo. E foi em frente, descendo pelo corpo imaginado, visualizado. Quando, afinal, descreveu a penetração, a fricção dos corpos e o clímax simultâneo, Amaury já tinha gozado duas vezes e ela, nem sabia quantas.

— Uau, que delícia, Rose! Mas vou confessar, sou um pouco mais rápido do que você e…

— Sei disso, homem é assim mesmo. Não ligo, sua voz e meus dedinhos vão me garantir orgasmos múltiplos. Até amanhã, tesão.

— Até amanhã, tesuda.

Depois de desligar, ele ficou pensando. Admitira ser “um pouco mais rápido” que ela, um eufemismo; na verdade era bem mais rápido, algo inevitável, dada a sua profissão. Decidiu então não utilizar termos crus nem mesmo em versão fofinha, tipo chaninha, substituindo-os por construções rebuscadas. Seria um meio de prolongar a trepada e, uma vez que ela gostava mesmo era de sua voz, não faria grande diferença. Provavelmente, ajudaria.

Na noite seguinte, Amaury ligou no horário combinado. Pediu para vê-la nua, “pra esquentar os motores”, e ela mostrou seu corpo de mulher madura, na força da idade.

— Então vou começar. Preparada?

Sem esperar resposta, foi em frente.

— Foi dada a partida, os dois se encontram, tiram as roupas um do outro, beijo, beijo, beijo, língua, língua, língua, mordida, mordida, mordida, toques recíprocos nas zonas do prazer, lambidas nos seios e vai descendo, lambe, lambe, lambe, os dois se engolem, que delícia, entram na reta final, já entreveem o portal do paraíso, ele a penetra, ela o envolve com sua carne mais íntima, ele vai fundo uma, duas, três vezes… e cruzam juntos a linha de chegada!

Um segundo de silêncio e a pergunta ansiosa:

— Gozou, Rose?

Um segundo de silêncio e a resposta raivosa:

— Locutor de corrida de cavalo, filho da puta? Vá trepar com suas éguas!!!

E o áudio emudeceu para sempre.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.