Insegurança na Caixa
Lula mantém herança de Bolsonaro e I.A. tira bônus de bancários
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A Caixa Econômica Federal estuda uma parceria para substituir bancários por sistemas de inteligência artificial no atendimento, na oferta e na contratação de serviços junto à população. Segundo informações obtidas por Notibras, o projeto prevê que a I.A. assuma parte significativa das funções hoje desempenhadas pelos empregados das agências, conduzindo a relação com o cliente desde o primeiro contato até a formalização de contratos de produtos e serviços.
O plano inicial mira justamente a área de seguros. Trata-se de um setor em que bancários atuam na venda e recebem comissões como complemento de renda, pagas à equipe de comercialização independentemente do salário. A substituição da força de trabalho humana pela I.A., nesse caso, não cria novas oportunidades nem requalifica profissionais. Ao contrário, elimina postos, retira renda e transfere ganhos para intermediários tecnológicos.
A iniciativa é liderada pelo presidente da Caixa Seguridade Corretagem, Ricardo Talamini Cardoso, e é apresentada internamente como uma solução para um antigo problema – as reclamações recorrentes de bancários sobre atrasos e até mesmo a falta de pagamento das comissões de venda. A “solução”, no entanto, é reveladora do espírito do projeto, porque, em vez de corrigir distorções, prefere-se extinguir o trabalhador do processo. Com a adoção da I.A., as comissões deixariam de ser pagas aos bancários e passariam diretamente aos parceiros privados responsáveis pela operação tecnológica.
Nada disso acontece por acaso, nem em qualquer lugar da estrutura da CEF. O experimento está sendo gestado na Caixa Seguridade Corretagem, empresa criada durante o governo Bolsonaro, sob a presidência de Pedro Guimarães, como um núcleo estratégico e blindado, responsável pela apuração e pagamento de corretagens de todos os seguros negociados pela Caixa. À época, a empresa foi concebida como uma espécie de “camarote” administrativo, ocupado por quadros próximos ao então comando do banco.
No auge dos escândalos de assédio moral e sexual que abalaram a Caixa, foi para esse enclave que Pedro Guimarães tentou deslocar figuras do círculo mais íntimo de sua gestão. A presidência da empresa foi entregue a Camila de Freitas Aichinger, então vice-presidente de Varejo e considerada uma das pessoas mais próximas de Guimarães. Sua ascensão meteórica, noticiada pela Folha de S. Paulo, acabou interrompida pelo afastamento da vice-presidência, em meio a denúncias de assédio moral.
Com a mudança de governo, esperava-se uma revisão profunda dessas estruturas. O que se vê, porém, é a permanência da Caixa Seguridade Corretagem como um reduto bolsonarista “raiz”, onde prosperam ideias radicalmente liberais e abertamente antissindicais, como a substituição de bancários por inteligência artificial. Mesmo sob a gestão Lula, a empresa segue protegida por interesses do Centrão, tornando-se altamente resistente a auditorias mais rigorosas ou a qualquer influência política que questione seu modelo de funcionamento.
Os números ajudam a dimensionar o impacto social da iniciativa. De acordo com a Apcef paulista, apenas no primeiro semestre de 2025 a Caixa Seguridade Corretagem pagou 192 milhões de reais em comissões de time de venda aos bancários da Caixa. Esse valor representa renda direta para trabalhadores espalhados por mais de 4 mil agências em todo o país, e é exatamente esse montante que está na linha de tiro do experimento.
A tecnologia, por si só, não é o problema. O risco está na opção política de usá-la para retirar renda, enfraquecer vínculos de trabalho e aprofundar desigualdades, em vez de incorporá-la a uma estratégia de desenvolvimento, qualificação profissional e geração de emprego. Trata-se de uma herança maldita do bolsonarismo que resiste ao tempo. E que desafia o governo Lula, em plano ano eleitoral, a decidir se vai enfrentá-la ou administrá-la em silêncio.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
