Doença incurável
Lula na Sapucaí dá mais inveja que controvérsia
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Faz parte das escolas de samba brasileiras a exploração dos acontecimentos que sacodem ou já sacudiram a história nacional. Desde que o samba é samba, figuras políticas de relevância se transformam em enredo e movimentam a avenida. Estreante no Grupo Especial do Carnaval do Rio 2026, a Acadêmicos de Niterói desfilará na Marquês de Sapucaí com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Gostem ou não os adversários, a história do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será contada desde sua origem humilde em Garanhuns até o terceiro mandato presidencial, passando pela trajetória sindical e o legado de programas sociais.
Obviamente que o tema gerou controvérsias políticas e investigações sobre o uso de recursos públicos e propaganda antecipada. Para desespero dos bolsonaristas, nada ficou provado contra o uso indevido de verbas públicas pelo governo petista. Quanto à antecipação da campanha, a lei diz que ela só se caracterizará caso Lula peça votos na avenida. Como imagino que ele não é burro, essa hipótese também não vai prosperar. Aliás, fosse Jair Messias o homenageado, com certeza os bispos, pastores e o rebanhão das igrejas evangélicas estariam na passarela pedindo votos e fantasiados de Pôncio Pilatos.
É aquela velha história do invejoso que, por não saber sonhar, está sempre atrás dos sonhos dos outros. Ele não quer ter o que a gente tem. Ele quer ser o que somos. Trata-se de uma doença incurável. Uma pena, mas, da inveja deles, nasceu a fama de Lula da Silva. Lula não é o primeiro e certamente não será o último. Vários presidentes e figuras centrais da política nacional já foram, direta ou indiretamente, enredos ou receberam homenagens de escolas de samba do Rio e de São Paulo. Além de Luiz Inácio, Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek, Itamar Franco, FHC e Dilma Rousseff também marcaram presença em sambas que abordaram o contexto político de seus mandatos.
Fernando Collor de Mello foi citado em enredos de crítica à época de sua eleição e, posteriormente, do impeachment. Em 2020, a Acadêmicos de Vigário Geral apresentou imagens satirizadas de Bolsonaro. Com todo respeito aos que nunca foram, não são e jamais serão homenageados, mas, na apoteose à grandeza, somente os heróis e os baluartes nacionais merecem tributos e aplausos na avenida. Resumindo a ópera, como Sonhar não Custa Nada, aos que não conseguem marchar Atrás da Verde e Rosa resta Pegar um Ita no Norte, subir na caminhonete de Nikolas Ferreira e cantar para a turma de derrotados Histórias para Ninar Gente Grande.
De minha parte, o que posso dizer é simples: Liberdade, Liberdade, Abre as Asas sobre Nós, porque, desfiando meus Contos de Areia, eu Vou Festejar. Como no Brasil ninguém se conforma de já ter sido e não aceita a fama de nada ter feito, o melhor é agir como o malandro e se fingir de morto diante das reclamações a respeito do samba em homenagem a Luiz Inácio. Pensando bem, o bom malandro é aquele que se faz de bobo para sobreviver em um mundo de implacáveis caçadores. Por isso, realmente não custa nada também lembrar do Jair.
Como os sambas enredo para 2026 já estão definidos, decidi fazer o meu para reverenciar o ídolo do show dos horrores. Com o enredo Como um Político sem Expressão chegou à Presidência, minha fictícia escola terá uma comissão de frente explorando o tema Um Pária do Mundo. Os atores e as atrizes retratarão os principais estadistas do planeta, com o mito separado em um canto da avenida. Entre as variadas alas, os destaques serão As Fraquejadas, Pintou um Clima, Motos e Jet-Ski, Gaiola das Loucas, Lives, Cercadinho, Golpe, Zero à Direita e Rachadinhas.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978
