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Script antecipado

Lula perde na fantasia mas o enredo é nota 10

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Mais gato angorá do que lebre de mercado persa, fui criado no meio do povão. Por isso, sempre me achei mais flamenguista do que politiqueiro. Como na fase adulta precisei me definir política e partidariamente, finquei minhas possibilidades ideológicas no espectro de centro-esquerda. Variei conforme as figuras, mas nunca sequer me aproximei da direita. Aliás, sem radicalismo algum, só sosseguei como ser humano pensante depois que me transformei em ambidestro. Hoje, circulo muito bem daqui para cá, mas normalmente patino de cá para lá. Ou seja, extremos bestificados, nem pensar. Com muito orgulho, sou lá lá lá.

Eis a razão pela qual morrerei convicto de que povo algum merece ser empurrado para o precipício econômico-social como forma de pressão política. É o que está fazendo Donald Trump com Cuba, foi o que fez Benjamin Netanyahu com os palestinos e o que sempre fará o clã Bolsonaro. Ameaças, punições, falta de diálogo, de empatia e de coragem e golpismos não servem como soluções para crises. A necessidade é de profissionalismo político. Embora seja considerado por seu principal adversário um “Opala velho” e um político “retrógrado”, quase um “produto vencido”, o presidente Lula tem feito seus oponentes se borrarem na cueca boxer.

Concordo com os que pedem mais tempo para que o martelo eleitoral de 2026 seja definitivamente batido. No entanto, os números, as análises, os fatos e determinados atos externos são inquestionáveis. Descontadas as margens de erro para cima e para baixo, dez entre 11 analistas cravam no nome de Luiz Inácio. Outros dez entre dez pesquisadores consideram o Lula 3 o embrião do Lula 4. Vem daí o medo da oposição e a tentativa de frustrar judicialmente a pré-candidatura do líder petista. Dirão meus opositores que nem tudo que se passou no carnaval ficou no carnaval. Também concordo, mas não posso discordar que, a essa altura, nem os aiatolás reúnem condições de desentocar o bolsonarismo e de credenciar as lideranças do extremismo à direita como salvadores da pátria.

Como na “Marcha do Aiatolá”, hino de 1979 do Pacotão, tradicional bloco carnavalesco de Brasília, como recuperar um governo que, antes mesmo do fim, já estava gagá. Hoje, a maioria de seus membros ou está presa ou em conserva. Enquanto pensam no que fazer para derrubar o crescimento eleitoral do candidato petista, os bolsonaristas tentam descobrir uma única falha de Lula assistindo a reprise do desfile da Acadêmicos de Niterói. É natural que a oposição busque pelo em ovos ou chifres nas testas dos equinos. São narrativas que, ao contrário do que imaginam seus criadores, não geram engajamentos fora do núcleo duro dos fanáticos.

Pior são aqueles que, vez por outra, são obrigados a repetir que, além de ultrapassado, Lula é enganador. Pode ser, mas não é amador. Caminhado para sua quarta passagem pelo Palácio do Planalto, o presidente não seria tão infantil a ponto de burlar o entendimento de especialistas em direito eleitoral. Portanto, o sonho dourado de tirar Lula da disputa certamente se transformará em mais um pesadelo para a súcia bolsonarista. O primeiro ocorreu quando Donald Trump decidiu, a pedido de Eduardo Bolsonaro, punir o governo e o povo brasileiro. Logo após o episódio que gerou a cassação de Dudu do Hambúrguer, o The New York Times, um dos jornais mais importantes dos Estados Unidos, publicou um editorial ressaltando o respeito que o presidente brasileiro conquistou no exterior.

Fundamental para que o presidente norte-americano mudasse sua forma de pensar em relação a Lula, o texto evidenciou o que definitivamente derrubou o clã Bolsonaro: o diabo de barba é hoje um dos líderes mais influentes e respeitados do planeta. Queiram ou não os negacionistas, Luiz Inácio mostrou ao mundo que é possível governar com coragem, virar enredo de escola de samba, recuperar a economia e colocar o povo no centro das decisões. É claro que adjetivações incomodam muita gente. Incomodam muito mais os que não merecem nem ser lembrados. Luiz Inácio conseguiu o que muitos achavam impossível: falar pouco e entregar muito. Quanto ao resultado da Sapucaí, tudo dentro do script antecipado dos donos da liga: a Acadêmicos de Niterói caiu, Lula perdeu na fantasia e nas alegorias, mas a verdade do samba enredo mereceu nota 10.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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