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DISTOPIA URBANA

Luzes da Madrugada: a felicidade assistida é só estabilidade

Publicado

Autor/Imagem:
Renan Damázio - Francisco Filipino

Poucos viam as luzes. Não porque elas fossem fracas, mas porque surgiam num horário em que os olhos humanos já estavam cansados demais para acreditar no que viam. Elas apareciam sempre entre 3h12 e 3h19 da madrugada. Nunca antes. Nunca depois. Como se obedecessem a uma lei que não era do tempo, mas de alguma coisa que simulava o tempo.
Eram luzes limpas, quase clínicas, mas atravessavam o céu da cidade como quem atravessa água turva. Havia dificuldade, refração e um atraso estranho. Não piscavam como estrelas. Não se moviam como drones. Não cortavam o ar como aeronaves. Elas simplesmente… acendiam.

Payton as via do terraço do Bloco 7 da Cidadela Professor Martinez, sentado numa cadeira de plástico rachada, com uma xícara de algo quente que nunca tinha o mesmo gosto duas vezes. A cidade abaixo era um emaranhado de estruturas verticais, passarelas suspensas, letreiros holográficos defeituosos e tubos que levavam coisas invisíveis de um lugar a outro. Havia vapor saindo do chão. Havia fios atravessando o céu. Anúncios prometendo felicidade em três parcelas sem juros. Ainda assim, havia silêncio.

Não o silêncio da ausência de som, mas o silêncio de quando tudo soa irrelevante.

Payton sentia isso desde criança. A impressão de que estava fora de fase com o mundo. Como se tudo vibrasse numa frequência ligeiramente diferente da sua.

Ele andava, falava, trabalhava, sorria quando esperado, mas nada disso parecia tocar o centro dele. Como se o centro estivesse… vazio.

As pessoas diziam coisas como: “Você só está cansado”, ” Você pensa demais”, “Todo mundo se sente assim às vezes”, “A vida não tem que ter um grande propósito, Payton”. Mas ele sentia que não era isso.

Era como se o mundo estivesse montado ao redor dele, mas não para ele. Como se ele fosse um objeto esquecido num cenário muito bem construído.

As luzes na madrugada eram a única coisa que o fazia sentir que algo estava errado o suficiente para ser verdadeiro. Elas acendiam no céu (três círculos brancos leitosos, perfeitamente alinhados) e permaneciam ali por alguns segundos longos demais para serem um fenômeno natural e curtos demais para serem registrados por qualquer sistema oficial.

Quando Payton tentava fotografar, o visor ficava preto. Tentava gravar e o arquivo vinha corrompido. Perguntava às pessoas e ninguém lembrava de ter visto nada, exceto ele. E, às vezes, crianças.

Uma menina uma vez disse: “Parece quando alguém acende a luz de um quarto.” Payton riu na hora. Mais tarde, parou de rir.

A cidade funcionava. Isso era o mais perturbador. Havia trabalho, comida sintética com gosto aceitável, centros de entretenimento onde as pessoas riam em sincronia, programas de felicidade assistida, projetos, metas, carreiras, relações, aniversários, lutos, tudo perfeitamente organizado para simular uma existência plena. Mas todos pareciam levemente angustiados, como se vivessem bem, mas não inteiros. Era como se algo tivesse sido retirado deles antes mesmo de nascerem.

Payton trabalhava como analista de padrões urbanos, o que na prática significava observar fluxos de dados procurando anomalias que não deveriam existir. Ele encontrou muitas. Pequenos atrasos no tempo de resposta da cidade. Microfalhas de continuidade. Pessoas repetindo a mesma frase com entonações idênticas em dias diferentes. Um gato que atravessava a rua exatamente no mesmo segundo toda semana. E, principalmente, as luzes.

Ele começou a cruzar dados. Descobriu que sempre que as luzes apareciam, havia um aumento mínimo, quase irrelevante, no consumo de energia numa zona que oficialmente não existia. Uma área sem nome. Sem função. Sem registro. Uma mancha branca nos mapas. Payton tentou acessar. O sistema recusou. Tentou novamente. O sistema apagou o acesso. Tentou de novo. O sistema fez algo que nunca fazia. Falou com ele.

“Essa informação não é relevante para sua continuidade.”

Não sua segurança. Não sua permissão. Sua continuidade. Foi aí que Payton entendeu. Não entendeu tudo, mas entendeu o suficiente para sentir um medo novo, limpo, preciso. Ele não estava vivendo. Ele estava rodando. A revelação não veio como explosão. Veio como encaixe. As luzes não estavam no céu. Elas estavam acima. Muito acima. Elas não eram fenômenos. Eram interruptores. Não iluminavam o mundo, e sim iluminavam o lugar onde o mundo estava. Payton não era pequeno dentro de uma cidade grande.

Ele era microscópico dentro de algo imenso.

A cidade não estava no universo. O universo estava fora da cidade. E alguém, em algum lugar que não tinha palavras, acendia a luz do cômodo onde aquele experimento era mantido. Como quem verifica uma cultura em laboratório.

Como se observasse bactérias se organizando. Um olhar curioso para ver se algo parecido com consciência emergia do suficiente acúmulo de complexidade.

Payton não era um indivíduo. Era um padrão. Uma variável. Uma tentativa. E o mais cruel não era isso. O mais cruel era que o sistema inteiro existia justamente para que ninguém jamais percebesse.

Para que todos vivessem confortavelmente dentro da ilusão de sentido. E Payton tinha quebrado essa regra sem querer. Por isso diziam a ele que a vida tinha propósito. Por isso o confortavam. Por isso negavam.

O sistema não estava defendendo a verdade. Estava defendendo a estabilidade.

Na última vez que Payton viu as luzes, ele não estava no terraço. Ele estava deitado. Não num quarto. Numa superfície branca.

Sem dor. Sem peso. Sem corpo. A cidade estava desligando. Não como um colapso, mas como quem fecha um livro. Ele não sentiu pânico. Sentiu algo muito mais estranho. Um alívio.

Pela primeira vez, tudo fazia sentido, inclusive o fato de que nada tinha sentido algum. Antes de tudo desaparecer, ele pensou: “Então é isso que eu sou. Não um herói. Não um fracasso. Não um buscador de verdades. Apenas um lampejo de consciência emergindo por acidente dentro de um sistema grande demais para notar que isso aconteceu.”

E talvez, só talvez, esse fosse o único tipo de milagre que realmente existe. Quando alguém acendeu a luz para olhar. E algo lá dentro… olhou de volta.

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Renan Damázio, carioca, é advogado, professor e poeta, autor do livro “Emoções e Reflexões”.

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