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Palestina

MÃE DA MANHÃ

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

Percebi apenas o vulto. Foquei os meus cansados olhos por trás dos óculos e Ela estava lá.

Em pé, sobre os cacos de vidro cimentados erroneamente pelos inquilinos que nos antecederam, produzindo sons desconexos, desesperados.

Agitada como quem chama pela vida, pela alma. Jamais esquecerei, em minhas andanças de passarinho, aqueles sons e a pequena criatura saltitando sobre o muro lateral de nossa nova casa.

À frente, o imenso quintal com a frondosa jabuticabeira a nos oferecer sombra e carinho.. Não para Ela na busca alucinada de sua pequena cria caída do ninho. Durante toda a manhã, Ela e Ele saltitaram e mergulharam em voos cegos por nosso quintal emitindo sons que pareciam me suplicar por alguma pista.

Localizei o filhote tentando um voo desajeitado, horizontal, sem domínio nem direção. Tentei pegá-lo com a toalha retirada do varal. Nada. A cada nova tentativa, nova fuga em voo horizontal para meu desespero já tão perceptível quanto as agitações do pequeno corpinho Dela. Como veio, se foi.

A pequena cria sumiu por entre os galhos com folhas verdes do pé de erva-cidreira. O casal permaneceu por vários dias cumprindo a mesma procura, sobre o mesmo muro, no coração de nosso jardim.

A imagem que jamais sairá de minha lembrança:

Ela, a Mãe-passarinho, pequenina como a minha, saltitando num ritual tresloucado e cantando melodias profundas para a cria que jamais iria reencontrar.

………………….

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que não consegue esquecer o canto dolorido das Mães-passarinho palestinas entre bombas, fome e tanto horror sem fim. Vive na Guarda do Embaú, vilarejo do litoral de SC.

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