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Funcionário de carrreira

Mãe Dinah de Niterói

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Comentei, no conto Balões, que meu avô trabalhava na Caixa Econômica Federal. Funcionário de carreira, ele foi chefe de gabinete da presidência da Caixa, cargo exercido entre 1939 e 1946 por Carlos Luz.

Meu avô apresentou-me a ele no início dos anos 1950, quando eu devia ter 5-6 anos. Lembro de ter ido com vovô até a sede da Caixa, no Rio de Janeiro, e penetrado no ambiente austero e silencioso em que ele trabalhava; imagino ter recebido severas instruções para não barbarizar, ficar quietinho, sob pena de ser substituído pelo neto perfeito e imaginário, Eduardo Carlos, aquele filhodeumaegua. E ali fiquei, sentado junto a uma mesa baixa, desenhando, achando aquilo tudo chatíssimo, rezando para voltarmos logo para Niterói.

Lá pelas tantas, entrou um senhor e meu meu avô me apresentou:

– Doutor Carlos, este é meu neto, Carlos Eduardo.

Do pouco que lembro, visualizo um velho alto e poderoso. Diga-se que, para um garoto de 5-6 anos, qualquer adulto maduro é enorme, um himalaia, e velhíssimo, um matusalém. Quanto ao poderoso, deve ser uma racionalização a posteriori do respeito que eu percebia nas palavras de meu avô para com o recém-chegado.

O tempo passou, meu avô se aposentou, Carlos Luz enveredou pela política. Em novembro de 1955, houve pressões civis e militares contra a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart, eleitos respectivamente para a presidência e a vice-presidência da República naquele ano. Caberia ao presidente em exercício, Café Filho, lidar com esse ensaio geral do golpe de 1964, mas ele sofreu um distúrbio cardiovascular e foi afastado temporariamente do cargo. No dia 8, foi afastado por prazo indeterminado, “por ordem médica”, e Carlos Luz, então presidente da Câmara dos Deputados, assumiu a presidência.

La em casa, o clima era ao mesmo tempo de satisfação e receio. Satisfação de meu avô, por ter, se não um amigo, pelo menos alguém de sua estima no primeiro posto da República; receio e reservas manifestadas por minha avó, mulher sábia, que fugia da política como o diabo foge da cruz. A opinião de meu avô prevaleceu, e foi enviado a Carlos Luz um telegrama cujos dizeres eram mais ou menos os seguintes:

“Blá blá blá… Prevejo, ou melhor, tenho certeza de que seus anos na presidência encontrarão as melhores soluções para o nosso amado Brasil blá blá blá”.

Por sorte, o telegrama foi enviado no próprio dia 8; do contrário, perigava não chegar a tempo. Carlos Luz, tadinho, não teve anos na presidência, nem meses, nem sequer semanas. Foram três dias: empossado dia 8, no dia 10 tentou substituir o ministro da Guerra, general Lott, considerado favorável à posse de JK, e no dia 11 foi substituído por iniciativa de Lott, que passou a presidência a Nereu Ramos, então presidente do Senado. O governo (sic) Carlos Luz foi o mais breve do Brasil republicano.

Carlos Luz permaneceu na esfera política até sua morte, em 1961. Os orixás me confirmaram que, até bater as botas, responsabilizou por seu afastamento não Lott, não a mobilização popular em torno da posse de JK e Jango, democraticamente eleitos, e sim aquele maledetto telegrama enviado pelo pé-frio mor, seu ex-chefe de gabinete, mãe Dinah de Niterói.

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