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Presente dos deuses

Mais lágrimas são derramadas por oração atendida

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Atribui-se à santa Rosa de Lima, padroeira do Peru, das Filipinas, das Índias Ocidentais e de toda a América Latina, a seguinte frase: “Mais lágrimas são derramadas por orações atendidas do que pelas não respondidas”.

A santinha peruana estava coberta de razão. Albeni Santos que o diga.

Albeni detestava seu nome, fruto de uma infeliz junção das denominações do pai, Alberto, e da mãe, Geni. Poeta razoável, com dois livros publicados – ignorados pela crítica e, pior ainda, pelo público –, adotou desde cedo o codinome literário, o nom de plume, de Albi. Albi dos Santos. “O nome Albi tem algo de herético, de rebelde, de desafiador”, explicava sempre aos que o conheciam como Albeni. “A cidade francesa de Albi foi o coração do catarismo, movimento declarado herético pela Igreja Católica e esmagado pelos exércitos franceses no século XIII, na Cruzada Albigense”. Só que a manutenção do sobrenome, na versão “dos Santos”, evidenciava que os pendores iconoclastas do vate não iam muito longe.

Albi tinha dois sonhos, conquistar a glória literária e tornar-se famoso, conhecido em todo o Brasil. O primeiro, se concretizado, lhe asseguraria a imortalidade; o segundo, muito dinheiro, graças à venda de seus livros. Por essa razão, pedia sempre às musas e aos deuses (poetas, mesmo com sobrenome santificado, católico, têm um certo viés politeísta) que o tornassem famoso.

E então, talvez entediadas, em busca de um brinquedo novo, as divindades o atenderam.

Certa noite, um amigo ligou pra ele.

– Cara, cê virou uma atração no Face, You Tube, em todas as redes sociais!

– Foi mesmo? – indagou o poeta, entre espantado e lisonjeado. Sabia que a tigrada tupiniquim acabaria reconhecendo o seu valor.

– Claro que foi. Olha, vai no google e digita “A escrita de Albeni Santos”. Cê não vai acreditar no número de links!

– Albeni Santos? Não Albi dos Santos? – questionou o poeta, desapontado.

O amigo ignorou o nariz franzido literário e concluiu:

– Olha, entra no google. E agora tchau, tenho um compromisso.

Albeni/Albi despediu-se, entrou no google e digitou a frase. “É estranho não ser ‘A poesia de Albi dos Santos’, ‘O lirismo de Albi dos Santos’ ou algo assim”, pensou. “Mas tudo bem, vamos em frente”.

O mecanismo de busca o enviou a uma imagem dele mesmo, diante do computador, escrevendo seus versos. Cabe dizer que Albeni, 52 anos, divorciado, sem filhos, sozinho em seu apartamento, ficava à vontade na sacrossanta intimidade do lar. Em outras palavras, passava o dia inteiro de cueca e camiseta. E foi isto que ele e, provavelmente, milhares de internautas viram: a imagem de um homem barrigudo, de pernas finas, quase calvo, de cueca diante do computador.

Não era uma foto, e sim um vídeo extenso, quase uma transmissão em tempo real, um BBB exclusivo. Com uma careta de desgosto, ele viu-se tirando meleca do nariz, coçando o saco, usufruindo de todos os pequenos prazeres de alguém que mora sozinho e escreve versos vestindo apenas uma cueca e uma camiseta encardida. E a expressão de desgosto transformou-se em horror quando se ouviu dizer, com um risinho malicioso, “Hora de dar uma relaxada”, e se viu entrar em seguida em um site pornô. O pior é que dava pra ver os atletas, uma mulher e dois homens, fazendo coisas que até Deus duvida.

– Isso foi há dois dias – disse Albeni a si mesmo. – Que bom que só olhei o vídeo; se fosse na semana passada… Mas quem me hackeou? Ninguém vem aqui, só a faxineira, tem medo do computador, nem chega perto… A máquina tá com defeito, ençpiqueceu? É um ataque a distância?

Pobre poeta. Imaginou todas as hipóteses, menos uma brincadeira de mau gosto dos deuses.

Sabendo o que iria encontrar, entrou em outras redes sociais, especializadas em vídeos curtos. Não deu outra: chamadas como “Albeni se coça” e “Albeni mete o dedo” mostravam-no fazendo tudo isso. Houve até um meme em que, com a ajuda de uma IA, um filho de uma égua mostrava-o com um sorriso obsceno e os olhos saltando do rosto, que nem num desenho animado, diante do vídeo pornô. Ele havia se tornado um meme ambulante. Sua persona de poeta herético, rebelde e romântico reduzira-se a pó de traque, enquanto os seguidores se multiplicavam sem parar.

O pior foi quando um conhecido influenciador ligou e disse estar disposto a financiá-lo, dividindo os lucros. Ele só teria de exagerar um pouco, coçar a bunda e cheirar o dedo, soltar uns peidinhos barulhentos, sabe como é, uma incrementada, o público quer sempre mais…

Só então o ex-poeta herético percebeu que os deuses maliciosos haviam atendido a suas súplicas: ele já era mais que conhecido e poderia ganhar muito dinheiro, explorando sua imagem. Recusou, é claro.

Albeni/Albi não conhecia a frase de santa Rosa de Lima. Contudo, antes de quebrar a marteladas o traiçoeiro computador, pensou num ditado que ia num sentido paralelo: “Cuidado com o que você deseja!”

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