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Natal dos deuses

Mais um conto que toma liberdades com o deus do Antigo Testamento…

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Reunião das divindades na noite de 24 de dezembro, em um plano espiritual qualquer. Estava presente a deusarada toda, das mais diversas mitologias, da judaico-cristã ao candomblé afro-brasileiro. Além de terem coisas a discutir, festejavam o aniversário de vários deles. E nem podia ser diferente, com milhões de deidades repartidas entre os 365 dias do ano!

Deusas e deusas confraternizavam na última. Quem gostava de beber (Baco, por exemplo), enfiava o pé na jaca. Outros/outras se pegavam. E, indiferente a tudo, um matinho espinhento e em chamas deslocava-se, silencioso, como que pairando sobre as águas.

– Lá vai ele – disse uma deusa hindu, que, com seus muitos braços, fazia festinhas em muitas deidades, de todos os gêneros.

– Quem é, tia? – perguntou um erê do candomblé.

A deusa examinou o menino, constatou que era novo demais para participar da brincadeira polimanual, suspirou e explicou:

– É o deus do Antigo Testamento, divindade dos judeus. Adora se montar de matinho pegando fogo – o nome técnico é sarça ardente – e sair por aí. Como afirma ser o deus único, finge que não nos vê. E nós o ignoramos! – concluiu, com uma pitada de rancor.

– Mas como é o nome dele? – insistiu o erê, entidade criança, curiosa como toda criança.

– Aí é que está. Já leu ou já ouviu falar nos livros da série Harry Potter?

O erê, analfabeto de pai e mãe, fez que não com a cabeça.

– O vilão da série utilizava o nome de Valdemort, mas era conhecido como aquele-cujo-nome-não-deve ser-pronunciado. Falar esse nome dava a maior zica. Pois bem, o nome hebraico do matinho em chamas também não deve ser pronunciado; ele é o Valdemort do Antigo Testamento! – falou, rindo. E prosseguiu. – No entanto, as letras YHWH costumam designá-lo. Então pode tascar umas vogais nisso e chamá-lo de Yaveh, Iavéh, Javé, Jeová, conforme você queira.

Nesse momento, Odin, o deus dos deuses da mitologia nórdica, pediu que parassem com a bacanal, havia questões sérias a discutir. E acrescentou:

– Depois vocês retomam a festinha!

Odin explicou que a reunião fora convocada em protesto contra a sofreguidão dos cristãos, que se apoderavam de símbolos de outras crenças.

– A árvore enfeitada no Natal, por exemplo, é uma tradição nossa, dos germânicos e nórdicos. Várias histórias sobre Jesus – e apontou para um homem jovem trepado em uma goiabeira, mandando ver numas goiabinhas – como ser filho de uma virgem, estão presentes em relatos sobre deuses muito mais antigos. E os cristãos fizeram ainda pior com o deus Mitra!

– De mim, tiraram o dia principal de meu culto, 25 de dezembro, Dia do Sol Invicto – esclareceu Mitra, protetor dos soldados. Para fazer dele o dia de nascimento daquele menino ali.

– O menino cresceu – cortou Jesus, entrando na discussão. – Olhem, não sei minha data de nascimento. Perguntei a minha mãe, mas ela está velhinha, coitada, não lembra. Perguntei a meu pai, mas vocês sabem, sarça ardente é uma coruja, não fala, só presta atenção.

O matinho em chamas queimou mais forte, reprovadoramente.

– Então, sinto muito, não posso fazer nada – prosseguiu Jesus. – Quem inventou toda essa parafernália sobre mim, sobre Mitra, sobre a árvore de Natal, foram primeiro as igrejas estabelecidas e, depois, a massa de fiéis. Se quiserem, façam guerra às igrejas cristãs. Mas não vai adiantar muito…

Os milhões de deuses não cristãos se entreolharam, resmungaram, mas decidiram deixar pra lá. Havia coisas mais divertidas a fazer, como mergulhar numa bacanal. Outros, porém, se aproximaram de Jesus, já passava da meia-noite.

– Parabéns e adeusinho – disseram as deidades do candomblé, da umbanda, da roda moçambicana, das crenças politeístas de todos os países lusófonos. E mesmo quem não tinha o português como língua natal, tripudiava:

– Adeusinhe.

– Adeusinhow.

– Adeusinhen.

Era uma sutil (vá lá, nem tão sutil) provocação, lembrando que “adeusinho” era uma expressão de despedida. Não existe deusinho; a mitologia judaico-cristã não tem deus menino, contrariando o verso da canção de Natal “vai o deus menino nos abençoar”. Jesus cresceu, enquanto Eros/Cupido, os Ibejis e erês do candomblé e tantos outros eram, sim, deuses e semideuses crianças.

Enquanto isso, a sarça ardente se afastava, como que pairando sobre as águas. O erê chegou junto:

– Ei, tio Vevé…

O matinho em chamas queimou mais forte, ultrajado pelo apelido; foi como se chamassem lord Voldemort de tio Volvod.

– Ei, tio Vevé – insistiu a entidade mirim. – Posso dar um mijada no senhor, pra ver se apago esse fogaréu? – e botou pra fora do calção o peruzinho.

YHWH queimou ainda mais forte, escandalizado. E reduziu a cinzas o pobre do erê, que não passava de uma criança travessa.

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