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Pipa no fio

Mamãe e a conversa que nunca teve com papai

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Produção Irene Araújo

Toda vez que meus netos me visitam, faço questão de irmos para a varanda e bater longos papos. É a oportunidade de me inteirar sobre o mundo deles, bem como as crianças descobrirem um pouco como era meu tempo de menino. Não sei se eles conseguem captar exatamente como eu vivia naquela época tão distante, talvez nem eu possua tamanho entendimento. É quase certo que muitas coisas deixei para trás e, não duvido, minha memória fez questão de fantasiar outras tantas.

Com uma carga de 70 anos acima da dos pequenos ao meu redor, convidei-os a entrar na imaginária máquina do tempo que criamos em forma de rede presa aos ganchos na parede e numa das vigas que sustenta o teto. A cada balançada, regredíamos um ano até chegar a 1954. Nessa época, corria descalço pelas ruas de paralelepípedos cercadas de casas coloridas. Uma topada aqui, outra acolá, joelhos esfolados, a pele precisava engrossar rapidamente.

Aos 8 anos, meus pés eram como cascos. Os espinhos precisavam ser firmes para feri-los. Hoje, depois de tantos e tantos anos de meias e sapatos, eles se rasgam que nem papel fino. Se estou descalço, até o felpudo tapete da sala me causa cócegas.

Não gostava de pipa, mas cansei de correr atrás das que, linha cortada, voavam ao bel-prazer do vento. Se caísse sobre uma árvore ou o telhado de alguma casa, era ligeiro que nem macaco-prego. Mas se a danada se enganchasse em fiação de posto de energia, nem chegava perto. Minha mãe, de tanto me contar de gente eletrocutada, me fez ficar bem longe. Até hoje, quando ando pelo bairro, basta olhar para cima e ouço a voz da mamãe: “Reinaldo, se eu te pegar metido com fio, você vai ter aquela conversa com seu pai!”

O pavor de tomar taca de papai era maior do que levar choque e cair durinho. Cresci temendo meu pai, até que, lá pelos 45 anos, tive coragem de perguntar para meu velho quantas vezes ele havia tido as tais conversas comigo. Mamãe, que estava ao lado com minha esposa, começou a rir. Fiquei sem entender aquela reação, mesmo porque, talvez traumatizado pelas surras tomadas, não conseguia me recordar de nenhuma.

— Conversa? Que conversa, Reinaldo?

— Lúcio, ele está perguntando das vezes que você bateu nele.

— Bater? Como assim? Nunca levantei um dedo pros meus filhos. Sempre fui totalmente contrário à violência, você sabe muito bem disso, Áurea.

Incrédulo com tal revelação, levei algumas semanas para digerir aquilo tudo. Seja como for, percebi que mamãe quis me proteger de um perigo, que, afinal, era real. Mães, de vez em quando, agem assim. Creio que, a partir de então, ficamos mais próximos. E, qualquer coisa que eu aprontasse, ela se virava para mim e falava: “Reinaldo, seu pai já está chegando para ter aquela conversa com você!”

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