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Anais do Senado

Mão Santa, derrotado, vai à Tribuna com Deus

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Vou lhe contar uma história que aconteceu no plenário do Senado, em Brasília.

Era 8 de novembro de 2010, uma semana depois da eleição. Epitácio Barbosa de Almeida, o Mão Santa, acabara de perder a tentativa de se reeleger senador pelo Piauí.

Mão Santa era médico, já tinha sido prefeito de Parnaíba, governador e senador. Mas currículo nunca foi o que melhor o definia.

Mão Santa era Mão Santa.

Falava como quem pregava. Gostava de começar com um “atentai bem” e, no caminho, podia aparecer Cristo, Sócrates ou alguma lembrança que só ele sabia como tinha chegado até ali. O importante era não perder o microfone.

Naquela segunda-feira chuvosa, porém, havia um pequeno problema: quase ninguém estava interessado em ouvi-lo.

Por volta das seis da tarde, apenas três senadores estavam na Casa. Um presidia a sessão. Na área da imprensa, havia três seguranças, um fotógrafo e, segundo o relato de quem estava lá, um dos seguranças cochilava.

Mão Santa não se abalou.

Discursava sobre Fernando Henrique Cardoso quando o celular tocou dentro do paletó.

Ele tirou o aparelho do bolso.

Era o jingle da campanha que acabara de perder:

“Queremos Mão Santa de novo.”

Qualquer outro senador desligaria o telefone.

Mão Santa aproximou o celular do microfone.

O jingle da campanha derrotada começou a tocar pelo sistema de som do Senado. E Mão Santa, diante de um plenário quase vazio, anunciou:

“Olha, é Deus. O Brasil todo vai ouvir o que o Piauí canta.”

Depois completou:

“É Deus que escreve certo por linha torta.”

Os taquígrafos registraram tudo.

O celular tocou outras duas vezes durante o discurso. Na terceira, provavelmente nem Deus precisava mais se identificar.

Mão Santa continuou. Falou de corrupção, de Tropa de Elite 2, reconheceu a vitória de Dilma Rousseff, pediu que Deus lhe desse coragem e lembrou a própria derrota eleitoral com orgulho.

Tudo isso praticamente sem plateia.

Mas aí estava o detalhe: Mão Santa nunca precisou muito de plateia. Bastava uma tribuna, um microfone e a certeza de que alguém, em algum lugar, deveria estar ouvindo.

Naquela noite, depois de perder a eleição, ele conseguiu algo que poucos políticos seriam capazes de fazer.

Transformou o próprio jingle derrotado numa ligação divina.

E Deus, pelo visto, queria Mão Santa de novo.

A política brasileira sempre foi assim.

……..

História baseada em reportagem de Fábio Góis para o Congresso em Foco, publicada em 8 de novembro de 2010, e na transcrição oficial da sessão nos Anais do Senado Federal.

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