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Brasília

Mãos à obra, Bartô! Até Dionísio aplaudiu escolha

Eduardo Monteiro

Ainda estava com o pé na cozinha, quando ouvi o som vindo da TV lá na sala. O âncora anunciava a demissão, pelo governador Ibaneis Rocha, do secretário de Cultura do Distrito Federal. Os versos de Augusto dos Anjos, de súbito, me vieram à mente: “Quando pararem todos os relógios de minha vida, e a voz dos necrológios gritar nos noticiários que eu morri…” Não se tratava evidentemente de uma morte, mas sim, de um fim.

Iniciei imediatamente, sem perceber, um passeio virtual. Visitando a memória, tentava imaginar quem seria seu substituto. No final da noite recebi um zap, onde estampado na manchete estava o nome de Bartolomeu Rodrigues, de quem muito já ouvira falar. A quem não conheço pessoalmente. As pálpebras pesaram-me. Era a hora de estar com Morfeu.

Pela manhã, pus-me a indagar aos quatro cantos do Quadrado: “Você conhece o Bartô?” Foram inúmeras as respostas que o celular recebeu. Até aí nada demais, apenas a constatação de que se trata de uma pessoa bastante conhecida na cidade. O fato interessante vem com o conjunto da obra.

Na noite anterior percorri a própria mente. Hoje a mente me transportou para uma espécie de encontros e reencontros com velhos amigos jornalistas, uma animada confraria, sem uma única tulipa de chope, onde a pauta era única: elogios que se mostravam de rasgados a moderados ao jornalista, desenhista, escritor e teatrólogo Bartolomeu Rodrigues. Ou simplesmente Bartô.

Li e ouvi referências como “um cara sério. Do bem”; “gente da melhor qualidade”; “jornalista competente e excelente desenhista” e por aí afora. A minha curiosidade persistia e insisti nas pesquisas, à essa altura inspirado em Camões: “…Na quarta parte nova os campos ara. E, se mais mundo houvera, lá chegara.”

Foi aí que fui surpreendido por Donga e Mauro de Almeida. Em uma inusitada viagem Pelo Telefone, com meu amigo e colega José Seabra. Este, ao lado de Ronald Van Der Camp, outro dileto amigo, indagou de lá sobre como desenhar o perfil do deus grego do teatro; grandes nomes da música, literatura, das artes plásticas…

Agora a ficha caiu. Na companhia de Dionísio, Molière, Dostoievski, Shakespeare, Machado de Assis, Da Vinci, Picasso, Bach, Villa-Lobos e cia, comecei a pensar nesse enredo, como se tentasse montar um grande desfile de escolas de samba. Ah! Quantas saudades…

Embarquei na nau imaginária e cruzei mares ao som de Pixinguinha, Luiz Gonzaga, Clementina de Jesus, Roberto Carlos, Cartola, Helena Meirelles e Renato Russo. Ao sabor das ondas relia sem parar Patativa do Assaré, Guimarães Rosa, Cora Coralina, Lima Barreto e me deliciava com os traços de Nássara, Péricles, Elifas Andreato e Will Costa. A leveza do pincel de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Portinari. Para embalar os sonhos assistia sem piscar Grande Otelo, Ziembinski, Paulo Autran, Tônia Carrero e Nathalia Timberg. Há quem diga, que Bartolomeu Dias, conhecido por ter sido o pioneiro a navegar até o Oceano Índico teria sido o comandante da embarcação.

De volta à terra, tive um insight celestial em Coríntios: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor…” É isso! É preciso um conjunto de aptidões, conhecimentos, foco…

Mas se a vontade de partilhar e compartilhar com todos os atores do processo não existir, ninguém vai a lugar nenhum. A rádio Cultura, por exemplo, é uma “pérola jogada aos porcos”. E o Teatro Nacional, a classe artística, a cultura do Entorno, o Carnaval do DF?

Brasília merece nada menos que o melhor. Desejo que o artista plural e o intelectual respeitado Bartô, tenha a mesma desenvoltura como gestor da Cultura brasiliense. Afinal de contas, para mexer com competência o Caldeirão Cultural, tem que ter sapiência e as manhas de mago, bruxo ou similar. Quem sabe a inspiração pode ser a de voar, como seu homônimo, Bartolomeu de Gusmão, o padre que ia às nuvens.

Bartolomeu tem uma longa quilometragem de experiência na área jornalística e cultural. Tem talhado o perfil da pessoa certa para o cargo. Quem garante é a voz que chega mais uma vez aos meus ouvidos. Não a do âncora do telejornal, mas a de Dionísio. “Seja bem-vindo, Bartô! Vá e faça o seu trabalho. E boa sorte”.

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