Curta nossa página


Algo simbólico

Março não é poesia quando o corpo das mulheres é campo de guerra

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Há algo de profundamente simbólico no mês de março. Culturalmente, ele nos remete à canção “Águas de Março”, de Tom Jobim, que anuncia o fim do verão e sugere a ideia de ciclo, de encerramento, de renovação. Março, na poesia, é passagem. É promessa de recomeço.

Mas o que se fecha quando o mês se inicia com o estupro coletivo de uma jovem de 17 anos?

Não se trata de um fato isolado. Não é um desvio estatístico. É a reafirmação brutal de uma estrutura social que continua produzindo corpos femininos como territórios de dominação. A violência sexual, especialmente quando praticada coletivamente, carrega uma dimensão que ultrapassa o ato individual: ela comunica poder, reafirma pactos masculinos e performa controle. Como analisa Rita Segato, o estupro coletivo não é apenas violência sexual é pedagogia da crueldade. Ensina quem manda. Ensina quem pode.

Março também é o mês do Dia Internacional da Mulher. Um marco histórico que nasce das lutas operárias e da resistência feminina contra condições de exploração e desigualdade. Contudo, a cada ano, assistimos à diluição política da data. Flores, campanhas publicitárias, discursos protocolares. Enquanto isso, meninas seguem sendo violentadas. Mulheres seguem sendo assassinadas. Corpos seguem sendo disciplinados.

A socióloga Heleieth Saffioti já advertia que o patriarcado não é resíduo do passado, mas engrenagem articulada ao capitalismo e ao racismo estrutural. Ele organiza hierarquias, naturaliza desigualdades e legitima violências. Não por acaso, as vítimas mais vulneráveis pertencem, majoritariamente, às camadas socialmente precarizadas. A violência de gênero não paira no vazio; ela se ancora em estruturas.

Também Pierre Bourdieu demonstrou como a dominação masculina se perpetua por meio de violências simbólicas que parecem naturais, inevitáveis. Quando a sociedade pergunta onde a jovem estava, como estava vestida ou por que confiou, o que se faz não é buscar explicação é reafirmar a lógica de culpabilização da vítima. A violência física vem precedida por uma violência discursiva que a sustenta.

Escrever sobre isso, como mulher, não é um exercício distante. É atravessado por memórias, por experiências, por reconstruções. Recomeçar após ser ferida em qualquer dimensão é algo que muitas de nós aprendemos cedo. O que diferencia a dor privada da violência pública é apenas o grau de visibilidade. Como afirmou Carol Hanisch, o pessoal é político. Sempre foi.

Se março anuncia o fim de um ciclo, talvez devamos perguntar que ciclo estamos dispostas a encerrar. A naturalização da violência? A indiferença institucional? A complacência social?

Não há poesia possível quando o corpo das mulheres segue sendo campo de guerra. Que as águas de março não lavem apenas as ruas, mas a consciência coletiva. Porque enquanto uma jovem de 17 anos tiver sua vida atravessada pela brutalidade de muitos, março não será símbolo de renovação, será espelho daquilo que insistimos em não transformar.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.