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Debate histórico

Mary Del Priore, mestiçagem e a guerra pelo passado do Brasil

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Ameaças à historiadora reacendem disputa sobre raça, escravidão e memória

Um livro de História precisou de segurança reforçada para ser lançado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O dado, por si só, deveria provocar algum desconforto.

A historiadora Mary Del Priore e o professor Gian Melo organizaram História das mestiçagens no Brasil, coletânea publicada pela Editora Unesp que reúne pesquisadores de diferentes instituições e procura examinar a formação da sociedade brasileira para além de explicações raciais binárias. Durante a sessão de autógrafos, realizada em 5 de setembro, a editora providenciou segurança adicional depois de Del Priore receber mensagens ofensivas e ameaças nas redes sociais. O lançamento ocorreu normalmente, mas a controvérsia começara antes.

Em entrevista à revista Veja, publicada em agosto, Mary Del Priore afirmou que “a ideia de que a mestiçagem nasce do estupro” seria um mito. Acrescentou que relações entre senhores e mulheres escravizadas evidentemente existiram, mas sustentou que elas “jamais” constituíram regra. Para a historiadora, a formação mestiça brasileira também passou por lavradores europeus, trabalhadores pobres, militares, libertos, indígenas e diferentes grupos que estabeleceram casamentos, concubinatos e outras formas de relação ao longo dos séculos.

Foi o suficiente para transformar uma discussão historiográfica em batalha política.

Dizer que a mestiçagem brasileira não pode ser explicada exclusivamente pelo estupro de mulheres escravizadas é uma proposição historicamente sustentável. A historiografia acumulada nas últimas décadas documentou famílias constituídas por escravizados, uniões consensuais, casamentos entre pessoas de condições jurídicas distintas, alforrias, relações entre libertos e livres e estratégias familiares de mobilidade social. Pesquisa sobre casamentos mistos em São Paulo, por exemplo, encontrou uniões entre livres, escravizados e descendentes de africanos; estudos sobre Campos dos Goytacazes identificaram relações entre forros, cativos e livres pobres como parte importante dos processos de mestiçagem. Isso não torna a escravidão mais benigna. E muito menos elimina a violência sexual.

A escravidão era, por definição, uma relação radicalmente assimétrica de poder. Mulheres escravizadas estavam sujeitas ao domínio de proprietários, administradores e outros homens livres num sistema em que a autonomia sobre o próprio corpo era profundamente limitada. A violência sexual contra mulheres negras integra a história da escravidão e seus efeitos permanecem objeto de investigação acadêmica. Reconhecer famílias, afetos, casamentos ou estratégias de sobrevivência entre escravizados não autoriza ninguém a transformar o cativeiro numa sociedade de relações livremente pactuadas. É precisamente nesse ponto que a formulação de Del Priore pode e deve ser discutida.

A afirmação de que o estupro “jamais foi regra” é muito mais difícil de demonstrar historicamente do que a tese segundo a qual ele não explica sozinho a mestiçagem brasileira. A documentação preservada permite localizar casamentos, batismos, inventários, alforrias e famílias. A violência sexual clandestina deixa, pela própria natureza, registros muito mais precários. Transformar sua frequência numa proporção segura exigiria uma base documental que dificilmente existe para vários séculos e diferentes regiões do país.

Portanto, há espaço legítimo para contestar Mary Del Priore. O que não há é qualquer passagem racional entre contestar uma interpretação histórica e ameaçar fisicamente quem a sustenta.

A própria apresentação da obra pela Editora Unesp está longe de propor uma visão idílica da formação brasileira. Os organizadores descrevem as mestiçagens como processos atravessados por “tensões” e “violências”, além de acomodações, conflitos e resistências. Os capítulos abordam famílias, classificações sociais, indígenas, africanos, europeus, militares mestiços, língua, culinária, arte e literatura. A proposta declarada é ampliar o número de variáveis utilizadas para compreender o fenômeno, e não apagar a escravidão.

Existe ainda outra razão para a temperatura desse debate. “Mestiçagem” deixou há muito tempo de ser uma palavra inocente no pensamento social brasileiro. Durante o século XX, a valorização da mistura racial esteve associada a interpretações que ajudaram a construir a imagem de um Brasil supostamente menos conflituoso racialmente. Essa tradição foi duramente questionada por pesquisadores e pelo movimento negro porque a existência de miscigenação jamais impediu a permanência do racismo e das desigualdades. Estudos contemporâneos continuam mostrando que mestiçagem, identidade parda e “democracia racial” permanecem categorias em disputa. Esse passado intelectual explica parte da reação, embora sozinho não justifique a patrulha.

O problema surge quando uma categoria historicamente controversa deixa de poder ser investigada e, quando determinada interpretação passa a ser considerada moralmente proibida antes mesmo que suas fontes sejam examinadas, a pesquisa cede lugar ao tribunal. Quando insultos ou ameaças substituem livros, documentos e argumentos, já nem estamos mais diante de uma divergência acadêmica.

Del Priore reagiu publicamente afirmando que estudar a mestiçagem não significa celebrá-la nem condená-la. Segundo a historiadora, autores da coletânea chegaram a enfrentar hostilidade em ambientes acadêmicos, enquanto ela própria recebeu insultos e ameaças antes da Bienal. Em texto divulgado nesta semana, defendeu que documentos e interpretações possam ser confrontados sem que determinados assuntos se convertam em zonas proibidas de investigação.

Um livro concebido justamente para sustentar que a formação brasileira é mais complexa do que uma oposição simples entre dois grupos acabou capturado por uma discussão que também corre o risco de dividir o mundo em apenas dois lados: de um lado aqueles que estariam “apagando a violência da escravidão”. Do outro, os que estariam “combatendo o identitarismo”. A História é menos confortável.

É certo que houve estupro, coerção, escravidão, racismo e brutal desigualdade de poder. Houve também famílias escravizadas, homens e mulheres libertos, casamentos, relações inter-raciais entre pobres, indígenas, africanos, europeus e seus descendentes, ascensão social e múltiplas classificações de cor que mudaram no espaço e no tempo. Investigar uma dessas dimensões não obriga a negar as demais.

Pode-se discordar de Mary Del Priore. Pode-se considerar sua declaração excessivamente categórica. Pode-se confrontá-la com arquivos, estatísticas, estudos demográficos e outras interpretações historiográficas.

É justamente assim que conhecimento avança.

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