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Mentira social

Mauss e a obrigação de responder “estou bem”

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

“Tudo bem?”

“Tudo.”

A mentira social mais aceita da contemporaneidade.

Ninguém quer realmente saber.

Ou melhor: algumas pessoas querem.

Mas existe uma convenção silenciosa segundo a qual determinadas perguntas não exigem respostas verdadeiras.

Mauss poderia nos ajudar a pensar nisso a partir da lógica da dádiva e da reciprocidade.

Perguntamos.

Respondemos.

Retribuímos.

Mantemos a relação.

“Como você está?”

“Estou bem. E você?”

“Também.”

E seguimos.

A conversa cumpriu sua função social.

O problema é quando alguém realmente responde.

“Não estou muito bem.”

Silêncio.

A estrutura social entrou em pane.

Porque fomos treinados para oferecer cordialidade, não necessariamente escuta.

Talvez por isso algumas pessoas tenham uma dificuldade enorme de receber a verdade do outro.

Querem saber como você está, desde que a resposta não dê trabalho.

Mas relações verdadeiras são inconvenientes.

Exigem tempo.

Presença.

Reciprocidade.

Às vezes exigem sentar.

Ouvir.

Ficar.

E talvez seja justamente aí que a dádiva se torna mais interessante: aquilo que recebemos cria alguma responsabilidade.

Se alguém nos oferece confiança, não deveríamos tratá-la como entretenimento.

Se alguém nos oferece vulnerabilidade, não deveríamos responder com julgamento.

Talvez o verdadeiro “tudo bem?” seja aquele que aceita a possibilidade de a resposta ser “não”.

Porque perguntar de verdade é aceitar que talvez precisemos ficar para ouvir.

E, sinceramente, isso é muito mais trabalhoso do que simplesmente dizer “se cuida”.

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