Prosa e verso
Meio em transe, arrastou-se até o computador
Publicado
em
André mal terminara o primeiro café diário quando sentiu a presença de Érato, a musa da poesia.
Meio em transe, arrastou-se até o computador, ligou-o e começou a escrever. Os versos jorravam, sem esforço.
Dor
Coração insatisfeito
Dói demais dentro do peito
Por ciúme ou por despeito
E o verso surge, escorreito,
De alguém que disputa o pleito
Da vida, e sempre perde.
E então a coisa ferve,
Se abrasa, se incendeia
Envolvendo numa teia
De tristeza a minha verve.
Cambaleio e sigo adiante
Tropeçando a cada instante
Até ver surgir, num rompante
O amor há tempos perdido.
Rompeu os grilhões do olvido
O manto do esquecimento
E me deu, por um momento,
O prazer de amar de novo.
Mas tudo é sujeira, é lodo
E o amor logo se esvai
Com uma dor pontiaguda
Que não há santo que acuda
E que em meu peito acalme
O meu enorme cansaço
Pois levo, junto a minh’alma,
Todo o meu ser em pedaços.
E então o encosto se foi, a filha de Zeus partiu, e ele examinou, com olhos críticos, o poema que cometera.
– Hum, rimado … – disse em voz alta. – Gosto mais quando a poesia baixa em versos livres, sem rima e sem métrica – releu o poema e continuou. – Pelo menos não há rimas chinfrins, tipo amor e dor, graças aos deuses por pequenos favores. Embora não me agrade muito a rima peito/despeito, é um substantivo concreto e outro abstrato, tudo bem.
Tomou fôlego e prosseguiu.
– Gostei bastante da passagem “De alguém que disputa o pleito/Da vida, e sempre perde”. E das rimas ricas subsequentes, “ferve” e “verve”. E mais adiante, da oposição “novo” e “lodo”, “acalme” e “alma”.
A essa altura, como em geral acontecia, explodiu.
– Mas o poema é fundamente falso! Não tenho, dentro do peito, um coração insatisfeito, muito menos um amor perdido e que por um momento retorna. E quanto a levar junto à alma todo o meu ser em pedaços… Pelamordideus! Não sei por que a musa da poesia apronta dessas comigo!
Porém, no fundo, ele sabia. Levantou-se, a custo, da cadeira do computador, arrastou-se até a cadeira de rodas, ergueu o corpo com dificuldade, sentou-se nela e foi para a sala. Esperava a chegada da neta que lhe traria as refeições congeladas da semana.
– Quem sabe se dessa vez ela conversa um pouco comigo… – falou baixinho. Mas tinha poucas esperanças, adolescente é fogo, não tem paciência com gente velha.
Com um suspiro resignado, preparou-se para encarar, por mais sete dias, a mais negra solidão, quebrada apenas pelos sons da TV e pelas visitas das musas, com suas dádivas em verso e prosa. Somente elas se compadeciam do escritor solitário e acariciavam, ainda que simbolicamente, seu ser em pedaços, corroído pelo tempo.