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Prosa e verso

Meio em transe, arrastou-se até o computador

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

André mal terminara o primeiro café diário quando sentiu a presença de Érato, a musa da poesia.

Meio em transe, arrastou-se até o computador, ligou-o e começou a escrever. Os versos jorravam, sem esforço.

Dor

Coração insatisfeito

Dói demais dentro do peito

Por ciúme ou por despeito

E o verso surge, escorreito,

De alguém que disputa o pleito

Da vida, e sempre perde.

E então a coisa ferve,

Se abrasa, se incendeia

Envolvendo numa teia

De tristeza a minha verve.

Cambaleio e sigo adiante

Tropeçando a cada instante

Até ver surgir, num rompante

O amor há tempos perdido.

Rompeu os grilhões do olvido

O manto do esquecimento

E me deu, por um momento,

O prazer de amar de novo.

Mas tudo é sujeira, é lodo

E o amor logo se esvai

Com uma dor pontiaguda

Que não há santo que acuda

E que em meu peito acalme

O meu enorme cansaço

Pois levo, junto a minh’alma,

Todo o meu ser em pedaços.

E então o encosto se foi, a filha de Zeus partiu, e ele examinou, com olhos críticos, o poema que cometera.

– Hum, rimado … – disse em voz alta. – Gosto mais quando a poesia baixa em versos livres, sem rima e sem métrica – releu o poema e continuou. – Pelo menos não há rimas chinfrins, tipo amor e dor, graças aos deuses por pequenos favores. Embora não me agrade muito a rima peito/despeito, é um substantivo concreto e outro abstrato, tudo bem.

Tomou fôlego e prosseguiu.

– Gostei bastante da passagem “De alguém que disputa o pleito/Da vida, e sempre perde”. E das rimas ricas subsequentes, “ferve” e “verve”. E mais adiante, da oposição “novo” e “lodo”, “acalme” e “alma”.

A essa altura, como em geral acontecia, explodiu.

– Mas o poema é fundamente falso! Não tenho, dentro do peito, um coração insatisfeito, muito menos um amor perdido e que por um momento retorna. E quanto a levar junto à alma todo o meu ser em pedaços… Pelamordideus! Não sei por que a musa da poesia apronta dessas comigo!

Porém, no fundo, ele sabia. Levantou-se, a custo, da cadeira do computador, arrastou-se até a cadeira de rodas, ergueu o corpo com dificuldade, sentou-se nela e foi para a sala. Esperava a chegada da neta que lhe traria as refeições congeladas da semana.

– Quem sabe se dessa vez ela conversa um pouco comigo… – falou baixinho. Mas tinha poucas esperanças, adolescente é fogo, não tem paciência com gente velha.

Com um suspiro resignado, preparou-se para encarar, por mais sete dias, a mais negra solidão, quebrada apenas pelos sons da TV e pelas visitas das musas, com suas dádivas em verso e prosa. Somente elas se compadeciam do escritor solitário e acariciavam, ainda que simbolicamente, seu ser em pedaços, corroído pelo tempo.

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