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Vida acontecendo

Memórias que o cacto guardou

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filipino

Quatro casas, onde viviam quatro núcleos de uma mesma família, davam para o mesmo pátio, separado da rua por um antigo portão de ferro. O chão, coberto de cimento grosseiro e pedras dispostas a intervalos irregulares, guardava as marcas do tempo e dos muitos passos daquela família. Ao centro, em um grande canteiro quadrado cercado por vasos de plantas, erguia-se, sobranceiro e generoso, o cacto.

Era enorme e crescera abrindo seus muitos braços. Forte e grosso, resistia ao vento que, vez ou outra, atravessava o pátio e chegava às janelas das casas, onde assobiava feroz. Testemunha silenciosa de tudo que o cercava, tolerava, manso, as crianças menores, que temiam seus espinhos e se admiravam com suas raras flores, e as maiores, que lhe deixavam marcas com estiletes.

Gravavam nomes e datas, fazendo escorrer o leite que minha avó classificava como perigoso:

— Cuidado, menino. Lave bem a mão. Esse leite cega.

Os cortes cicatrizavam e deixavam mensagens para os anos vindouros. Mensagens que subiam com o crescimento do cacto, tornando-se maiores e mais largas.

A casa ficava em outra cidade, no interior, onde eu passava as férias. Ao fundo do pátio ficava a casa de meus avós maternos. Na casa ao lado vivia uma filha deles, minha tia, com o marido e três filhos, meus primos. No lado oposto, morava outra tia, viúva, mãe de uma prima que vivia longe. Na última casa, uma prima mais distante com seus filhos.

A chegada das férias era o momento que eu mais aguardava no ano. Desde que me entendia por gente, passava-as na casa de minha avó. Ali, eu, garoto da cidade, sentia-me livre. Podia brincar na rua, andar de bicicleta e sair com meus primos e outros garotos em busca de aventuras que, para mim, eram sempre desafiadoras, embora não passassem de pescarias e subidas a um morro próximo, de onde se avistava uma bela paisagem.

Mas era no pátio, bem maior do que nosso apartamento, que eu encontrava tudo de que precisava: mais céu, mais sol e o vento no rosto. Passava horas à toa no chão ou sobre uma esteirinha de vime, perto do cacto, contemplando a imensidão do céu sem perceber o tempo.

Nem sempre, porém, quis ficar próximo daquele vegetal imenso.

Lembro-me das recomendações de minha avó. Não podia chegar tão perto nem pôr a mão no cacto. Tinha de tomar cuidado com os espinhos quando passava de bicicleta. Meu primo caçula e eu apostávamos para ver quem completava mais depressa a volta inteira no pátio, contornando o cacto, passando junto ao portão que dava para a rua e, no sentido oposto, pela porta do barracão existente nos fundos. O barracão tinha saída para a rua de trás e abrigava a oficina mecânica de meu avô.

Com tantos alertas, justificava-se — ou eu justificava para mim mesmo — o medo que crescia dentro de mim.

O cacto.

Mergulho ainda mais fundo em minhas lembranças e o vejo durante as chuvas de verão, iluminado à noite pelos relâmpagos. Da janela do quarto onde dormia, enxergava-o por detrás de uma parede de água que caía do céu em torrentes. Nas noites de tempestade, sua silhueta fazia dele uma criatura sinistra, cheia de braços que pareciam tentáculos irregulares e ameaçadores, com uma pele pálida e esverdeada sob a claridade azulada dos relâmpagos.

Durante o dia, não me inspirava menos terror. Houve períodos em que eu evitava ficar sozinho perto dele. Temia que se convertesse em uma criatura capaz de se mover e tocar meu ombro. Mesmo depois de crescer, ainda respeitava seu silêncio misterioso e não ousava ferir-lhe a carne com um estilete.

Até que conheci Ana.

Tinha cabelos pretos e longos e vestia-se toda de rosa. Do alto de meus doze anos, apaixonei-me instantaneamente por ela, que tinha apenas dez. Talvez me atraísse sua aparência de menina intocável e distante, que não se comovia com meus galanteios infantis, ou a franja que lhe completava a expressão brava. Havia nela alguma coisa misteriosa, que me inspirava quase o mesmo receio que o cacto. Uma forma silenciosa de dizer: “Não chegue tão perto.”

Ela parecia maior do que era. Eu, menor.

Ana também viera passar as férias com parentes na cidade. Fez amizade com minhas primas e logo estava brincando conosco no pátio.

As meninas nunca haviam despertado minha atenção. Ana foi a primeira. Julguei-me crescido, quase um homem, diante do que sentia por ela. Bastava ouvir sua voz no pátio para que eu interrompesse o que estivesse fazendo e me aproximasse. Ela gostava de brincar comigo, embora nem desconfiasse do que despertara em mim. As horas ao seu lado passavam voando.

Ana ficou poucos dias e depois foi embora. Prometi escrever-lhe, e ela me deu seu endereço. Escrevi.

Passei um ano esperando que voltasse. Nas férias seguintes, lá estava ela, ainda mais linda a meus olhos, depois dos intermináveis dias que antecederam nosso reencontro.

Foi ali, perto do cacto, que, num arroubo de coragem, me declarei a meu modo.

Meu avô me dera um canivete de cabo preto marmorizado, cuja bainha cheirava a couro. Aquele objeto, que conservo até hoje, me dera uma enorme alegria. Com o canivete, tornei-me valente. Sentia-me invencível, cheio de habilidades. Fui então fustigar o corpo do cacto, tatuando em um de seus braços as palavras: “Ana — Danilo — Amor”.

O leite escorria generoso das veias profundas daquele monstro inerte, brotando à medida que eu abria em sua carne as letras irregulares com a ponta do canivete. Quando terminei, chamei Ana para ver a inscrição. Surpresa, ainda sem compreender a dimensão que aquele sentimento tinha para mim, ela segurou minha mão e disse:

— Que lindo, Petit.

Ana sempre usava, para se dirigir a mim, o apelido que minhas primas me haviam dado por eu ser bem menor do que os outros meninos de minha idade. A princípio, não gostava do epíteto, mas havia algo diferente e carinhoso na maneira como ela me chamava. Meus olhos se encheram de lágrimas.

Dali em diante, até o fim de sua estada, não nos desgrudamos mais. Íamos juntos aos passeios organizados pela garotada, brincávamos em dupla e passávamos longos minutos sentados no chão, perto do cacto e da inscrição que eu fizera.

Em uma daquelas manhãs, eu estava na varanda ao lado de minha avó. Ela bordava sentada em uma cadeira de vime. Enquanto esperava que me chamassem para o café da manhã, também aguardava a chegada de Ana. Em determinado momento, ouvi a voz de minha mãe, lá de dentro:

— Danilinho, vem pegar seu café com leite!

Corri para dentro, pretendendo retornar logo para junto de minha avó. Quando me aproximava da varanda, percebi que Ana já havia chegado. Sem que ela me visse, ouvi o diálogo entre as duas:

— Bom dia, dona Nena!

— Bom dia, minha linda! Madrugou para vir brincar com as meninas?

— Não. Na verdade, vim ver o Petit.

Naquele instante, tive certeza de que eu era seu favorito, a razão de ter vindo tão cedo à nossa casa.

O dia de nos despedirmos chegou novamente. Ana deixaria a cidade antes de mim. Naquela tarde, vi-a entrar no carro da família para voltar para casa. Depois, fui para o pátio e chorei de saudade, deitado na esteirinha de vime sob a sombra angulosa do cacto.

Troquei várias cartinhas com ela antes das férias seguintes. Encontramo-nos de novo no outro ano. Eu já tinha catorze anos. Ela, doze.

Dessa vez, porém, foi diferente. Ana já não permanecia tão próxima de mim e preferia passar as horas com minhas primas. Eu ouvia risinhos e cochichos quando me aproximava. De alguma forma, ela me evitava. Senti-me menos querido e menos importante, mas não compreendia o que estava acontecendo.

Até que, de dentro de casa, ouvi uma conversa entre ela e minhas primas na varanda. Ana dizia que gostava de um tal Wagner, seu colega de turma. Minhas primas, interessadas, queriam saber como era o rapaz.

Naquela tarde e em várias outras, chorei sozinho perto do cacto, sem me interessar pelas brincadeiras ou pelas aventuras do grupo. Aquela dor durou muito além das férias.

A primeira vez que fui à casa de meus avós fora do período de férias começou com um telefonema. Não estávamos em casa, e nossa secretária eletrônica gravara o recado. Quando chegamos, ouvimos uma única mensagem. Era meu tio, que dizia laconicamente:

— Quando puderem, liguem para cá. Dona Nena não está bem.

Na casa de meus avós não havia telefone. Certamente meu tio ligara da casa de dona Regina, uma das vizinhas. Minha mãe telefonou imediatamente para ela, que confirmou que ele estivera ali e contou que minha avó passara mal depois do almoço e estava internada.

Partimos naquela mesma noite. Era inverno e fazia muito frio. Quando chegamos, minha avó já havia morrido, e a casa estava sendo arrumada para o velório, realizado, como se fazia então, na sala. Pompílio, dono da única funerária da cidade, colocara os suportes para o caixão, o crucifixo prateado e os pedestais para os círios. Já saía com meu tio em direção ao hospital da cidade vizinha, a fim de providenciar a liberação do corpo.

Nunca vira os meus tão transtornados. Tampouco estivera tão próximo da morte repentina de alguém que amava.

Velamos durante toda a noite o corpo de minha pobre avó. Pensei que não suportaria olhar para ela quando chegasse, mas vê-la ali, cercada de flores e coberta por um véu, trouxe-me uma serenidade que não compreendi.

No verão seguinte, minha maior preocupação já não estava nas brincadeiras com minhas primas nem nas aventuras com a garotada da vizinhança. Eu queria passar mais tempo com meu velho avô, que fechara a oficina mecânica e não estava bem de saúde.

Pela primeira vez, entraria naquela casa tão querida sem encontrar a figura alegre e amorosa de minha avó. Não vi mais a inscrição: “Ana — Danilo — Amor”.

Contaram-me que, poucas semanas depois da morte de minha avó, minha tia mexia nos vasos dispostos ao redor do cacto, replantando algumas mudas que precisavam de cuidados. Nessa ocasião, uma prima entrou de bicicleta no pátio, desequilibrou-se e caiu sobre o cacto.

Ela chorava, com o braço ensanguentado. Meu avô, ao vê-la, pegou um facão que guardava na oficina e decepou o velho cacto rente ao chão. Depois, cobriu com cimento o lugar onde ele estivera plantado por tantos anos. Os vasos que o cercavam foram dispostos sobre sua lápide.

Eu já estava com quinze anos e quase não pensava em Ana. Ainda assim, parei diante daquele quadrado de cimento e procurei, entre os vasos, alguma coisa que já não estava ali: o cacto, nossos nomes, minha avó, talvez o menino que eu havia sido.

Meu avô, envelhecido de repente, chamou-me da varanda.

Senti o canivete dentro do bolso e fui sentar-me ao lado dele.

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e  Território do Sonho (contos, 2026). Instagram: @prof.danielmarchi.

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