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Coerência

Meu corpo não é bastidor

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Não compartilho meu corpo com homens que não o defenderiam publicamente.

A frase pode soar dura, mas é apenas coerente. Intimidade não é esconderijo. Corpo não é bastidor. Se alguém só me reconhece no privado, mas silencia no público, não se trata de discrição, trata-se de conveniência.

Nas Ciências Sociais, reconhecimento não é detalhe afetivo; é fundamento de dignidade. Axel Honneth argumenta que ser reconhecido em diferentes esferas da vida, inclusive socialmente é condição para a autoestima. Quando alguém aceita sua presença na intimidade, mas evita validá-la diante do mundo, produz uma fratura simbólica: você existe, desde que não me comprometa.

Isso não é proteção. É hierarquia.

Durante muito tempo, mulheres foram ensinadas a aceitar esse arranjo: ser segredo elegante, companhia invisível, apoio silencioso. Simone de Beauvoir já apontava como a mulher frequentemente foi posicionada como “o outro” necessária, mas secundária. O privado era permitido; o público, negociado.

Mas maturidade é entender que o corpo é também linguagem política. Judith Butler nos lembra que o corpo ocupa espaço social, performa identidade, afirma existência. Se ele é digno de desejo, é digno de defesa. Se é digno de toque, é digno de nome.

Não se trata de exposição compulsória. Trata-se de coerência ética. Quem não sustenta sua presença em público provavelmente também não sustentará quando for difícil. E intimidade sem sustentação é apenas consumo afetivo.

No Nordeste a gente aprende algo simples: quem tem orgulho, mostra. Quem esconde demais geralmente teme assumir.

Meu corpo não é clandestino.

Não é parêntese.

Não é capítulo secreto.

Ele é parte da minha dignidade.

E dignidade não se negocia nos bastidores.

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