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O presidiário

Meu primeiro dia na cadeia

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Assim que cheguei àquele lugar onde a lei não parecia ter chegado, procurei me aproximar dos que, aos meus olhos ingênuos, me pareceram os que ditavam a ordem daquele caos. Esdras e Ronaldo, dois brutamontes que pareciam saídos de um ringue de luta livre, me olharam com misto de surpresa e curiosidade. E foi Esdras, ligeiramente mais alto, que puxou conversa.

— Tu é novo aqui, é?

Sem tempo para dizer algo mais elaborado, respondi a primeira coisa que me veio à mente.

— É.

Os dois me pareceram desconfiados, como se eu pudesse apresentar alguma ameaça. Logo eu, um pacifista nos moldes de Mahatma Gandhi. Minha natureza, de tão livre de impulsos bélicos, me fazia olhar para o chão com o intuito de não pisar, inadvertidamente, em alguma barata descuidada. E eis que Ronaldo, o mais parrudo, foi mais incisivo.

— Qual é a tua bronca?

Eu, mesmo nunca tendo me encontrado naquela situação, entendi. No entanto, na ânsia de me tornar respeitado, menti.

— Latrocínio.

Na verdade, estava ali por conta de fraude bancária. Todavia, parece que meu intento funcionou, pois os sujeitos arregalaram os olhos e, em seguida, me puxaram para mais perto. Esdras, quase sussurrando, disse que iria me apresentar ao chefão do pedaço. Foi aí que percebi que nenhum dos dois comandava o presídio ou, ao menos, a parte que eu havia caído.

Atravessamos o pátio, fiquei diante de um tipo tão pequeno e desprovido de carnes, que até eu, que estou longe de ser conhecido pela estrutura corporal, imaginei estar em frente a um anão ou algo parecido. Esdras me apresentou ao desprovido de altura.

— Montanha, esse é o Júlio.

Apesar de ser pelo menos 15 centímetros mais baixo do que eu, tive a nítida sensação de que o tal Montanha estava me olhando de cima a baixo, como se fosse um gigante avaliando se esmagaria ou não aquela barata que eu me negava a pisar.

— Hum! Qual é mesmo o seu nome?

— Júlio.

— Hum! Conheci um Júlio, mas nossos santos não bateram muito bem.

Tentei controlar os nervos da face, mas devo ter me denunciado por conta dos olhos arregalados. Digo isso porque o Montanha sorriu, ergueu as duas mãos em direção ao meu rosto, o envolveu e, em seguida, desferiu dois amigáveis tapas e decretou:

— Seja bem-vindo, Júlio.

E foi assim que fui aceito no grupo que, até aquele momento, parecia dominar aquela ala da cadeia. Mesmo assim, algo me intrigava e, quando tive oportunidade, questionei o Esdras.

— O Montanha não tem medo de ser morto por algum preso?

— Medo?

— É.

— Hum! Júlio, quem janta com o Diabo não teme nem a Deus.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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