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Vai na Fé

Milagre na farmácia da rua Morgue

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Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Naquele dia, os três sócios-proprietários da empresa de ônibus “Vai Na Fé” estavam em polvorosa.

Em estado de pura fúria, Ismael, Miguel e Rafael convocaram o titular do departamento jurídico para explicações.

— Como isso é possível, Erismar? Questionou Ismael, irritado.

— Como vou saber? Recebi a notificação hoje.

— Você tinha que saber, não mandamos você fazer um pente-fino que incluía um acerto sigiloso com o dono da Farmácia e todas as possíveis vítimas? Rosnou, Miguel.

— Isso mesmo, tudo bem que pagamos pouco, mas tudo o que não queríamos era isso: um processo na cabeça e a situação exposta publicamente além do necessário, vociferou, Rafael.

Data Vênia constrangido, Erismar tentou se explicar aos patrões:

— Eu fui lá nessa farmácia da rua Morgue assim que o Setembrino, o motorista, me ligou. Falei com ele e com o cobrador, Zeca. Setembrino alegou que o freio do ônibus falhou. Conversamos com o proprietário e com os presentes no local. Providenciei assistência médica e fiz acerto com as vítimas que tiverem ferimentos, todos leves. Não fiquei sabendo de ninguém que tenha ficado paraplégico.

— Pois é, mas com essa vítima você não falou, tanto é que que ele está nos processando por danos pessoais, materiais e morais, visto que nem providenciamos assistência médica para ele.

— Ele está pedindo dez milhões, um absurdo! Esse é o valor que economizamos por ano na manutenção “rápida” que fazemos da frota.

— E, além do prejuízo financeiro, a repercussão do caso pode nos custar a concessão da linha junto à prefeitura.

A fim de tentar trazer luz para a situação, motorista e cobrador do carro sinistrado foram chamados para depor frente aos próceres da empresa.

Após coçar o queixo, Setembrino declarou:

— Lembro que no dia garoava e fazia muito frio. Liguei para o seu Erismar, coloquei uma atadura na perna que estava doendo, esperei ele chegar e depois fui tomar café e comer uma baguete na lanchonete em frente. Só isso!

Coçando a cabeça, Zeca informou:

— Lembro que tomei um Dorflex que a moça da farmácia me deu e depois fui recolher a féria do dia na gaveta do ônibus. Tava tudo muito confuso e entrava um vento frio pela janela quebrada da farmácia…

Nervoso e ainda mais irritado com as informações que considerou irrelevantes, Ismael alisou o bigode e exclamou:

— Com funcionários assim, nem o velho da Havan teria ido muito longe.

— Podem ir, desse mato não sai mais coelho. Erismar, faça a nossa defesa e vê se dessa vez trabalha direito, determinou Miguel.

— Vai na fé e não falha! Emendou, Rafael.

Chegado o dia da audiência do processo “Vai Na Fé x José de Arimatéia” e com todas as partes a postos, a juíza deu início aos trabalhos.

O suplicante apresentou-se vestido com um manto branco, compungidamente sentado em uma cadeira de rodas.

Dentre outras informações, declarou ser arrimo de família e ter ido à farmácia no fatídico dia para comprar remédios para sua mãe, uma octogenária que sofre da doença de Parkinson.

Disse também que, após permanecer algum tempo imobilizado no local do acidente, foi levado para um hospital pelo genro que é médico e que o estava acompanhando na ocasião.

Enfim, coçando a barba já embranquecida, declarou que sempre fora um homem temente a Deus e que, certamente, só estava vivo naquele momento por um milagre. Assim sendo, aceitava a sorte que a providência divina lhe reservara naquela cadeira de rodas talvez para o resto da sua existência, causando visível comoção em todos os presentes.

Ouvidas as testemunhas e apresentadas as provas técnicas – tais como um laudo médico não conclusivo e a perícia dos freios defeituosos do ônibus – as partes fizeram as suas respectivas perorações. Ao final, a juíza prolatou a sentença: procedência total do pedido do suplicante.

Ato contínuo, o advogado Erismar foi parlamentar com os furibundos sócios-proprietários da empresa condenada.

— Vamos recorrer, o espertinho conseguiu comover a juíza com o seu figurino de santo do pau oco.

— Sim, vamos recorrer! Miguel, contrate um advogado, rosnou Ismael, franzindo a testa.

— Mas, mas… balbuciou, Erismar, logo silenciado pelos olhares coléricos do trio.

— E o Setembrino e o Zeca também vão rodar, obtemperou, Miguel.

Desolado e agora também enfurecido, Erismar abordou o suplicante na saída da sala de audiências:

— Seu vigaristazinho de quinta categoria, eu conheço bem o seu tipo, você é um 171 profissional, um aproveitador de situações e um falso religioso. Fica usando o nome de Deus para se locupletar e alegar falsos milagres. Aposto que em breve vai levantar dessa cadeira e caminhar melhor do que eu, armou tudo de caso pensado. Por culpa da sua perfídia perdi o meu emprego!

Tal era a convicção do causídico que, caso tivesse demonstrado tal eloquência durante a audiência, poder-se-ia pensar que talvez a sentença fosse outra.

Serenamente, o suplicante respondeu:

— O senhor é um homem de pouca fé! Daqui a quatro meses, suba o morro e esteja no santuário do Cristo Redentor, irá testemunhar um novo milagre.

Dali a quatro meses, depois de julgado e rejeitado o recurso da empresa, aconteceu: santuário do Cristo Redentor, uma reza poderosa, um cadeirante que se ergue, milagre!

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J. Emiliano Cruz é funcionário público federal, escritor e historiador.
Instagram: https://www.instagram.com/jorge23215/#
Autor da coletânea de contos A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS.
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