O vizinho
Milei segue passos de Bolsonaro para ter liberalismo particular
Publicado
em
Se há algo sistemático e repetitivo no discurso da extrema direita em qualquer local do mundo é a falsidade de que lutam pela liberdade e pela democracia, embora odeiem qualquer questionamento quando estão no exercício do poder. A ditadura civil-militar brasileira de 1964-1985 foi exemplo claro disso. Constituiu em um período em que o discurso oficial era defesa da democracia, embora naquela época todo e qualquer questionamento às ações do governo e também reivindicações sociais foram tratados como crimes contra o Estado, duramente reprimidos, com aplicação sistemática de censura e perseguições implacáveis que resultaram em milhares de prisões, torturas e centenas de mortos e desaparecidos.
Bolsonaro, cujo grande ídolo segundo o próprio foi um notório torturador da ditadura, como genuíno representante desta extrema direita, também recorrendo ao falso discurso de defesa da democracia e da Constituição, tentou em vão um golpe de estado contra justamente a Constituição e a democracia brasileiros para se manter no poder.
O representante mor da extrema direita Argentina, o atual presidente Javier Milei, percorre o mesmo caminho. Criou um partido ao qual deu o pomposo nome de A Liberdade Avança (La Libertad Avanza) supostamente em defesa da liberdade, se diz um libertário em todos os aspectos, mas sempre recorre à força desproporcional de suas polícias para reprimir qualquer manifestação popular contra seus desejos. A anti reforma trabalhista aprovada na última semana é exemplo disso, inúmeros feridos e presos por ousarem o livre exercício do protesto contra um pacote extremamente danoso aos trabalhadores daquele país.
Com discursos tão messiânicos quanto falsos, se diz libertário e ultraliberal na economia. Porém, há pontos em seu pacote de maldades que desafiam o liberalismo e a suposta liberdade de escolha, com medidas que suprimem ou sufocam legalmente o movimento sindical numa demonstração da intolerância com quem pensa diferente. O pacote de Milei, dentre centenas de reduções ou exclusão de direitos criou ainda a esdrúxula medida que permite que os salários possam ser pagos com gêneros alimentícios, agredindo a livre circulação do dinheiro ao subtrair assim dos trabalhadores o direito de escolherem o que fazer com o que deveriam receber. O liberalismo econômico, segundo toda literatura existente, assegura que um dos pilares do modelo é justamente a liberdade de escolha, que seria fator central para a determinação do preço das mercadorias.
Não bastasse as contradições absurdas da anti reforma trabalhista de Milei, seu governo também implantou um controle cambial que sustenta artificialmente o valor da moeda local, algo de arrepiar os “faria limers” libertários brasileiros. Ou seja, utiliza um mecanismo absolutamente anti liberal para artificializar a inflação e vender seu governo como um sucesso. Mas a conta chega, e chegará, assim como no Brasil chegou e o quebrou em janeiro de 1999, depois de quatro anos de câmbio controlado que assegurou artificialmente o valor do real frente ao dólar, o que segurou artificialmente a inflação e reelegeu Fernando Henrique Cardoso.
Fato é que a Argentina, tão decantada como exemplo pela “direitalha” brasileira, já dá mostras de esgotamento de um modelo que não resolve as questões estruturais do país, mas afaga a elite que assim se permite mais e mais acumulação a custa do sofrimento da sociedade daquele país, que já ostenta níveis de pobreza superiores aos do Brasil. Atualmente 31,6 % da população vive em estado de pobreza, sendo 6,9% de pobreza extrema, ao passo que no Brasil estes números são, respectivamente, 23,1% e 3,5%. Da mesma forma que a sangrenta e ultraliberal ditadura militar Argentina dos anos 1970 e 1980 permitiu à elite se enriquecer mais e mais e quebrou o país no início dos anos 1980, este é o cenário que o fanfarrão, canastrão e falador Milei está construindo em nosso vizinho.
………………..
Antonio Eustáquio é correspondente de Notibras na Europa