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Raiz musical

Mito de Orfeu e Eurídice volta à cena no Carnaval

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Autor/Imagem:
Anabelle Santa'cruz - Foto Editoria de Artes/IA

No coração do Reinado de Momo, quando a cidade troca o peso dos dias pelo brilho da fantasia, lembro sempre de Orfeu. Não o músico distante dos livros, mas aquele que desce a ladeira junto com a bateria, que afina a lira no mesmo tom em que o surdo marca o compasso da madrugada.

O Carnaval tem dessas frestas: por elas passam deuses cansados, amores interrompidos, promessas que a gente jurou cumprir em outras vidas.

Dizem que foi numa terça-feira gorda, quase na hora em que o céu começa a clarear e os garis ainda esperam o último confete cair, que Eurídice desapareceu outra vez. Não houve cobra, nem campo florido. Houve apenas a distração humana de achar que a alegria é eterna. Bastou um passo em falso, um desencontro na multidão, e pronto: ela foi tragada pelo escuro que começa exatamente onde termina o som do tamborim.

Orfeu percebeu pelo silêncio.

Quem ama reconhece o silêncio da pessoa amada como se fosse um instrumento quebrado no meio da orquestra. Ele chamou. Primeiro baixo, depois gritando, depois cantando como só os desesperados conseguem cantar. Mas o Carnaval, generoso e cruel, respondeu com mais música. Sempre mais música. É difícil sofrer quando o mundo inteiro insiste em sambar.

Então Orfeu fez o que faz todo amante quando perde: desceu.

Não ao inferno antigo dos mapas mitológicos, mas aos subterrâneos modernos — às galerias da memória, aos becos onde a purpurina vira lama, aos corredores onde a alegria usada dorme empilhada. A cada passo, sua canção ficava mais humana, menos divina. Já não era virtuosismo; era pedido. Já não era espetáculo; era falta.

E com pena — ou talvez com tédio — a noite permitiu o milagre conhecido: ele poderia levá-la de volta, desde que não olhasse para trás.

Mas quem atravessa um Carnaval sem olhar para trás?

Atrás é onde ficou o riso, o tropeço, o beijo roubado, o amigo perdido, a versão de nós mesmos que juramos melhorar na quarta-feira. Atrás é onde mora a tentação da certeza.

Orfeu caminhou. A claridade crescia. A cidade começava a bocejar seu cansaço dourado. Faltava pouco. Tão pouco que cabia inteiro dentro de um erro.

Ele virou.

E como sempre acontece, Eurídice era feita de neblina e despedida. Desmanchou-se não por maldição, mas por natureza: certas felicidades não suportam ser verificadas.

Quando o sol nasceu, havia apenas um homem parado no meio da rua, segurando um instrumento que já não sabia salvar ninguém. Em volta, serpentinas mortas, copos vazios, promessas evaporando.

Ainda assim, se você prestar atenção, em todo Carnaval alguém canta com uma tristeza funda demais para caber na festa. É Orfeu tentando outra vez. É sempre a primeira vez dele.

E Eurídice, misericordiosa, continua se perdendo para que a música exista.

…………………….

Anabelle Santa’cruz é Editora de Oráculos

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